segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Dê-se ao respeito, viado!


No carnaval, os desejos afloram. Hetero se veste de mulher; homo promove beijaço gay. Os moralistas escandalizam-se; os religiosos rezam e oram pela alma do mundo em retiros espirituais. As vontades são liberadas e os preconceitos cavalgam livres, leves e soltos.

Assim como existem mulheres machistas, homens feministas, negros racistas, existem também homossexual conservador e, até mesmo, preconceituoso. E muitos desses dizem que a discrição é afrontada pelos beijaços do mesmo sexo e pelas paradas, que não garantem direitos e ridicularizam o movimento diante da opinião pública.

Essa percepção vem em péssima hora, quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, desenterra projetos de lei que estabelecem o Dia do Orgulho Hetero e a proibição da adoção de crianças por dois homens ou duas mulheres.

Hetero não precisa de dia para ter orgulho porque não há necessidade de se afirmar na sociedade nem exigir direitos. Tudo está garantido na Constituição Federal. Precisam se autoafirmar os heteros que não têm sua sexualidade resolvida e questionam, mesmo inconscientemente sua orientação. Melhor seria trocar de avenida e de parada.

Portanto, beijaço hetero e dia do orgulho hetero não surtem efeito exatamente porque não há o que reivindicar. O mesmo não se aplica aos gays que não têm direitos assegurados. Por isso, precisam dar visibilidade a si próprios, às reivindicações, à luta por direitos sociais.

Muitos argumentam que os beijaços e as paradas gays não apresentam nenhuma reivindicação, que é apenas uma festa que nada tem a ver com direitos civis. Pode até ser e, mesmo assim, é uma forma válida para tornar os gays visíveis, tirá-los da limbo social.

O mercado já percebeu. Gay tem dinheiro e gasta muito e, por isso, há segmentos e nichos de mercado voltados somente para essa comunidade. O mercado não faz isso por ideologia ou solidariedade. O faz porque quer dinheiro e dinheiro não enxerga cor, sexo, religião ou orientação sexual.

O beijaço e as paradas são uma atitude política, mesmo que a maioria corre para a avenida e se esconde atrás da purpurina. Somente quando esse segmento deixar de ser invisível vai poder exigir o casamento igualitário, a adoção de crianças, a inclusão no plano de assistência, a pensão por morte, enfim...

Mesmo assim, há quem acredite que essa exposição pública seja prejudicial à imagem do movimento e que o gay não se dá ao respeito. Assim, a sociedade não vai respeitá-lo. Aqui reside uma verdade crua. Sem beijaço e sem parada, quem não respeita os gays nunca vai apoiá-los na busca por direitos.

O interessante é perceber que o discurso do “não se dá ao respeito” é uma arma contra a própria vítima. Esse mesmo viés é usado para explicar e, principalmente, justificar a violência de um estuprador. Afinal "a menina não se deu ao respeito porque bebeu demais”. “Também ela não se deu ao respeito e estava usando roupa provocante".

Na cultura da violência, para justificar o violento, a responsabilidade recai sobre a vítima. E isso também se aplica aos gays. O casal de namorados foi espancando por um grupo homofóbico porque andava de mãos dadas na avenida. Para milhões, esse ato de afeto é uma prova de que gays não se dão ao respeito. O moralismo é primo da repressão que flerta com a violência.

O fundo moralista desta discussão ajuda em nada. Esse debate reforça a percepção de que nada é homogêneo. O comportamento humano é muito complexo para ser colocado em caixinhas. A escola, a família e a igreja fazem isso muito bem. Isso pode, isso não pode, isso é necessário, isso é desnecessário.

Com ou sem beijaço e parada gay, estratégia mais ou menos agressiva, o fato é que ninguém - na história da humanidade – conquistou direitos civis escondendo-se dentro de um armário. Com a palavra, os sutiãs das feministas. Pode-se discutir a forma, mas a estratégia de enfrentamento é necessária.
  
Foto: Júnior Improta/Ag Haack. Reprodução reportagem do site Ego.

3 comentários:

Everton Lopes dos Santos disse...

Excelente texto e argumentos, como sempre!

Sebastião Ribeiro disse...

Grande texto. Obrigado!

Fábio Hostert disse...

Incrível! Bravo!
Reproduz muito bem uma realidade cruel que está cada vez nos sufocando em nome dessa moralidade que nos é imposta. Participei um pouco de um post no face, onde tudo isso que o autor escreve estava lá, gritando na nossa cara e cortando pernas do movimento igualitário, por parte da própria comunidade gay, o que é incrível.