domingo, 29 de março de 2015

Golpismo ou partidarização midiática?


O termo PIG – Partido da Imprensa Golpista – foi cunhado para designar a imprensa que ataca a esquerda e apóia a direita em sua sanha para voltar ao poder. Se não pelo voto direto, por golpes militar ou constitucional. O apoio da mídia brasileira ao golpe de 1964, cujos militares jogaram o país nas sombras durante 21 anos, não é um ponto fora da curva.  

O mesmo acirramento político-ideológico foi feito nos anos 1950 com Getúlio Vargas. E agora Dilma Rousseff sofre o mesmo processo. Vamos combinar que impedimento sem base legal é golpe e, portanto, quem apóia a medida faz as vezes de golpistas. Mas esse não é o tema central deste texto.

Enviesar a cobertura jornalística para atacar determinado partido e políticos, protegendo outros é partidarização midiática. Comparem como a mídia tradicional, por exemplo, cobre os temas que envolvem o PT e o PSDB e verifique se há equilíbrio no noticiário. Navegue pelo site do Manchetômetro, projeto de pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), sem sangue nos olhos e o resultado lhe será revelador. E é este enfoque, partidarização midiática, que adoto para analisar o papel da mídia brasileira na crise atual. Seguem algumas considerações.

1) Os donos de veículos de comunicação tomam partido todos os dias porque são porta-vozes dos interesses que lhe interessam. Não é novidade, para quem acompanha como se move a elite brasileira, que nomes de proprietários de veículos tenham conta na Suíça, no maior escândalo mundial de evasão fiscal. Há quem argumente que quando o grupo Globo publica a lista de empresários da comunicação com contas no HSBC dá credibilidade ao noticiário por ele próprio ter cortado na carne. Pura ilusão. Trata-se apenas de uma vacina - placebo - neste sentido. Credibilidade se constrói com equilíbrio editorial todos os dias e não eventualmente com uma matéria isolada. O tema não foi capa do impresso; nem virou série e muito menos reportagem de 15 minutos no Jornal Nacional.

2) A relação promíscua dos veículos de comunicação com a direta e sua pauta reacionária e conservadora não é nova. A TV Globo é acusada de crescer durante a ditadura militar exatamente porque seu fundador - Roberto Marinho - era íntimo dos generais, participando ativamente dos bastidores que tirou do poder um presidente (João Goulart) legitimamente eleito pelo voto. Alguma coincidência com a tentativa de impedir Dilma Rousseff? 

3) Sonegação fiscal e veículos de comunicação tudo a ver. A Globo, ainda ela, é acusada de operar em paraíso fiscal para não pagar impostos sobre os direitos de transmissão da Copa do Mundo, de 2002. O caso veio à tona pelo jornalista Miguel do Rosário, do blog “O Cafezinho”. O processo contra a emissora chegou a sumir da Receita Federal. A acusada do furto, conforme o site Diário do Centro do Mundo, “chegou a ser presa, mas, defendida por um dos mais caros escritórios de advocacia do Brasil, foi colocada em liberdade por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.” 

4) Agora, a RBS, a Globo – ela de novo – em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, está na lista da Operação Zelotes, da Polícia Federal, que investiga “a manipulação de julgamentos em processos administrativos e multas de empresas autuadas pela Receita Federal”. Conforme o Portal Fórum, com informações de O Estado de S. Paulo, “a RBS pode ter pago 15 milhões de reais para que um débito da empresa de 150 milhões de reais sumisse. No total, as investigações sobre débitos da RBS chegam a 672 milhões de reais.” A partir de agora a mídia tradicional - que aplaude as ações da Polícia Federal contra o PT e os políticos aliados do governo - vai continuar dando apoio e visibilidade ostensiva às operações do órgão?

5) A mídia, enquanto negócio, faz cooptação de autoridades através do ego. Há muito tempo a opinião pública é contaminada pelos interesses dos donos dos veículos de comunicação que ajudam a manter os temas que pautam na agenda nacional. O ex-STF Joaquim Barbosa e o juiz federal Sérgio Moro, que comanda a Lava Jato, ao receberem o prêmio “Faz a Diferença”, como “Personalidade do Ano”, revelam o perigo da promiscuidade entre esses dois poderes (judicial e midiático). Ofertar é uma coisa, aceitar é outra. “Num mundo menos imperfeito, Moro teria recusado um prêmio da Globo. Polidamente, assim como um jornalista rejeita um presente caro”, escreveu o jornalista Paulo Nogueira. A história da humanidade mostra que muitos combatentes caíram em desgraça por causa do ego. Na atualidade, os holofotes midiáticos são um fermento importante para inflar um dos principais pecados capitais: o orgulho.

6) A partidarização midiática serve aos veículos que apóiam a direita e os que apóiam a esquerda. E é verdade. Se a Veja é tucana; a Carta Capital é petista. Em países com democracias antigas, como Inglaterra, Estados Unidos e França, por exemplo, os veículos têm alinhamento político e não disfarçam a linha editorial. Inclusive em períodos eleitorais esses veículos declaram apoio a um determinado grupo e projeto político. No Brasil, a mídia tradicional que têm uma imensa abrangência tem um pensamento único. E os veículos alinhados com a esquerda são poucos, não conseguindo fazer o contraponto necessário a essa informação. Quem acaba fazendo esse papel no Brasil, ainda que de forma tímida, é a internet, com seus blogs e blogueiros. Há quem argumente que os internautas curtem em compartilham maciçamente o conteúdo da mídia tradicional. E isso é feito mais porque o modelo de negócio da mídia tradicional se repete na web. O jogo dos grandes na intimidação de blogueiros é pesado e conta inclusive com a mão amiga do Judiciário. Liberdade de expressão parece um valor para quem pode e não quer. E isso mesmo? 

7) Entendida a posição dos proprietários de veículos de comunicação é fácil compreender porque a cobertura jornalística ataca determinado grupo político, principalmente petistas; e protege outros, principalmente tucanos. Alguns frutos da cobertura desequilibrada podem ser claramente percebidos na atualidade: negação da política; combate seletivo à corrupção; discurso de ódio contra políticos, partidos e segmentos de eleitores; ataques a sede de partidos, mais uma vez preferencialmente a do PT; pregação da redução do estado; potencialização do setor privado; acirramento ideológico; violência contra militantes; disseminação de discursos contraditórios como a defesa da liberdade de expressão com volta dos militares... enfim, a lista é grande.

A mídia como produtora, disseminadora de conteúdo e construtora de sentidos tem uma responsabilidade imensa na percepção que as pessoas terão, entre tantos, sobre o sistema político e dos políticos e mais... do seu país e de si próprias.  Falar em golpismo é generalizar o debate quando o mais apropriado é falar de partidarização da mídia. Afinal, se os donos de veículos de comunicação tomam partido, a linha editorial vai fazer mais propaganda política e menos jornalismo. 

2 comentários:

mario fragoso disse...

Comentei, dia desses, que considerava inadequado o Sérgio Moro aceitar o "prêmio" da Globo. Levei mais pedradas do que mulher infiel nos tempos biblícos.

Reinaldo César Zanardi disse...

Mário Fragoso, levaremos pedradas juntos. Foi muito inadequado Sérgio Moro ter aceitado esse prêmio de uma rede de comunicação. Isso é preocupante. Não é à toa que o STF cedeu, por causa da pressão midiática, em vários pontos da AP 470 e a divulgação seletiva da Lava Jato segue o mesmo caminho. Juiz para ser imparcial não pode aceitar prêmios do Executivo nem do Legislativo nem da imprensa. O estado democrático de direito, com operações e julgamentos espetaculosos do Judiciário, corre sérios riscos.