quinta-feira, 30 de abril de 2015

O massacre dos professores


Não foi confronto entre os professores estaduais do Paraná contra a Polícia Militar. Foi massacre da polícia contra os professores, com as bênçãos do excelentíssimo governador, o tucano Beto Richa. Confronto se dá quando os oponentes estão em pé de igualdade. Não foi o caso.

De um lado, professores de cara limpa, cartazes e palavras de ordem, impedidos – por uma decisão da justiça paranaense de entrar na casa do povo, uma tal de Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep). Do outro, PMs com máscaras, bombas de gás, cães raivosos, enfim... a artilharia institucional para reprimir com violência. O saldo não deixa dúvidas, cerca manifestantes 200 feridos, muitos em estado grave.

Na pauta da Assembleia Legislativa, o projeto de reforma da ParanaPrevidência, que permite ao governador mexer nos direitos dos servidores públicos do Estado. O foco da administração é o caixa bilionário do órgão, que gere entre outros, a aposentadoria dos trabalhadores. 

Este episódio suscita algumas reflexões.

1) O governador é legítimo no cargo. Foi eleito pelo voto e, neste caso Beto Richa (PSDB), em primeiro turno. Em Londrina, por exemplo, ele teve cerca de 80% dos votos válidos. Isso é do jogo democrático, assim, como é ouvir a população sobre as propostas apresentadas e recuar, quando necessário. Richa não recuou e ainda massacrou os manifestantes. Isso não é democrático. É despótico. É autoritário. É ditatorial.

2) Beto Richa (PSDB) segue o roteiro realizado pelos tucanos em Minas Gerais e em São Paulo. O Executivo, nesses governos, costuma domar o Legislativo e o Judiciário, fazendo destes uma extensão. Tanto que o TJ concedeu liminar proibindo manifestantes nas galerias da Alep durante as votações. Para garantir os trabalhos dos deputados na aprovação do projeto, o governo convocou 1,1 mil policiais de todo o estado. E o pior, não bancou a ida dos PMs para a capital. Além disso, com ruas bloqueadas no entorno da Alep, deputados entraram no prédio, em camburão da PM. Quer prova maior da submissão dos nada nobres parlamentares ao Executivo?

3) O deputado estadual por Londrina, Cobra Repórter (PSC), segundo o jornalista Fábio Silveira, em um grupo do Whatsapp, afirmou que votou com o governador “porque o jogo é extremamente pesado, muito difícil, complicado e desigual” para quem está na oposição. Na mensagem, o excelentíssimo deputado disse que “se eu me posicionar na oposição, esse cara [Beto Richa] não me dá nada, nem o papel de bala”. Teria o parlamentar “vendido” apoio político em troca de futuros favores? Em nível federal, a troca de apoio político por vantagens ficou conhecida como mensalão.

4) Um governo de estado que recepciona professor com tropa de choque, bombas de gás, pitt bul e bala de borracha revela a incapacidade de dialogar e ceder ao clamor das ruas. Usar os recursos da ParanaPrevidência para pagar a conta do primeiro mandato de Richa é sintoma. Sintoma da má gestão do governo do estado.

5) A luta por direitos trabalhistas é legítima e os servidores do estado do Paraná não devem arrefecer. Lutar é um direito. Lutar por melhor salário e condição digna de trabalho é uma necessidade. No entanto, isso somente não é sinônimo de qualidade do serviço oferecido ao contribuinte. Na educação, por exemplo, a qualidade também depende de fatores como projeto pedagógico coerente; processo de ensino, de aprendizagem e de avaliação eficiente; estrutura física equipamentos adequadas; quantidade aceitável de aluno por turma, entre tantos.

6) Para a educação, o Paraná cria oficialmente mais uma data de profundo desgosto. 29 de abril soma-se ao 30 de agosto de 1988, quando Álvaro Dias, governador de então e hoje senador pelo PSDB, soltou a cavalaria em cima da mesma categoria. O massacre desta semana, promovido por Richa, se não apaga – pelo menos ameniza – o 30 de agosto.

7) A sociedade atualmente insiste chamar professor de educador. Como educar criança, adolescente e adulto educados (para o bem e para o mal)? Como ensinar uma sociedade que, muitas vezes, se recusa a aprender? Se o Brasil não valoriza seus professores, que transitem conhecimento, como incentivar que esses passem de ensinador para educador?

As reflexões sobre os acontecimentos de 29 de abril de 2015 são férteis e geram muitas lições que, infelizmente, não serão aprendidas por quem está no poder.

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