quarta-feira, 20 de maio de 2015

O padrão nosso de cada dia


As redes sociais também servem para refletir sobre a realidade, muito além do compartilhamento de asneiras, curtição das posições ideológicas ou dos conhecidos de sempre. O Facebook, por exemplo, fornece um terreno fértil - inclusive - para pensar sobre nós mesmos.  

Este texto nasceu de uma reflexão feita no post no Facebook de uma amiga, a Mayla Weber, jornalista e professora de Artes. Ela publicou em sua time line, um texto do Catraca Livre, sobre uma jovem australiana, com síndrome de down, que virou modelo.

Madeline Stuart, de 18 anos, segundo a reportagem, “sempre sonhou em ser modelo profissional”. E ela conseguiu realizar seu sonho. Os comentários no post de Mayla Weber discutiam que a nova modelo rompia com os padrões ao se tornar modelo com síndrome de down.

Sim e não. Sim porque ela tem síndrome de down e virou modelo. Não porque ela não rompeu padrão algum da indústria da beleza, aquele calcado na magreza, no excesso de maquiagem, na produção exagerada que tira qualquer traço de naturalidade.

Modelo com a cara lavada fica parecendo gente normal e isso não faz bem à indústria da moda que cultua um tipo de rosto ideal, de corpo ideal, de cabelo ideal. Sem o mito a ser buscado pelas mortais, como vender produtos que prometem a ‘imortalidade'?

O próprio texto do Catraca Livre, já na manchete, é categórico. “Jovem com Down perde 20 kg para realizar sonho de ser modelo”. Se não perdesse os 20 kg ela conseguiria realizar seu sonho de ser modelo? “(...) seu peso a atrapalhava nessa e em outras atividades, como a dança e a natação. Com o apoio de sua mãe Rosanne, a garota perdeu 20 quilos e ganhou confiança para lutar pela carreira nas passarelas.” Já reparou como o gordo é retratado com um ser sem confiança?

Observem, na reportagem, as fotos da garota do antes e do depois. O antes revela um corpo em postura desleixada, vestido no que parece mais um pijama, cabelo desgrenhado, cara de quem caiu da mudança junto com o criado mudo.

O depois mostra atitude fatal, postura confiante, em um biquíni adequado para suas curvas, cabelo milimetricamente arrumado, cara sob maquiagem pesada e iluminação de estúdio. O antes é um atestado de feiura; o depois de beleza. Com produção assim, a maioria dos feios fica bonita. 

Neste sentido, mais um questionamento. O problema para ser modelo é ter a síndrome de down ou ser gordo? Lembremos que as passarelas já foram abertas para transexuais, mesmo que o conservadorismo ainda impere entre as plumas, os egos e os paetês.

Um exemplo de transexual brasileira de sucesso internacional é Lea T, filha de Toninho Cerezo, ex-jogador de futebol. Lea posou para campanhas da Givenchy, em 2010; dividiu a cena com a super-hiper-ultra-mega modelo Gisele Bündchen. 

Lea T chegou a ser “eleita pela Forbes como uma das 12 mulheres quemudaram a moda italiana”. Transexual sim. Magra, esguia, cabeluda, também. O padrão das passarelas da transexual se repete na modelo com síndrome de down.

Aqui repito uma das afirmações que fiz no post da minha amiga, na sua página no Face, sobre a australiana com síndrome de down, mas que vale para as transexuais das passarelas também. “Ela é diferente, mas fez igual para tornar-se igual." Então de que padrões quebrados estamos falando mesmo?

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