sexta-feira, 22 de maio de 2015

Passarela ‘plus size'



Como resposta - continuando a reflexão sobre a quebra de padrões nas passarelas (tema do post anterior), outra amiga jornalista, Vanuza Fernandes, me envia um link sobre um concurso voltado para modelos “plus size”. E eu que achava que modelo gordo ou gorda era normal. Não é! É plus size. O evento, miss Rio Grande do Sul plus size, foi realizado em Bagé.

A vencedora do concurso é Scheila Dorneles, de 31 anos. A reportagem do  G1 afirma que Sheila “ao ingressar no segmento voltado às ‘gordinhas’, voltou a desfilar como fazia na infância e adolescência, e celebra o contato que tem com moças que, como ela, não se enquadram em padrões que considera ‘ditados pela sociedade’".

O trecho “segmento voltado às gordinhas” apresenta muitos sentidos. Reparou que o adjetivo gordo virou ofensa? Você já presenciou alguém usando o termo gordo para xingar outra pessoa? Até por medo de ser enquadrado nesta categoria (dos xingadores) muitos usam - por constrangimento - eufemismos (olhe a linguagem politicamente correta aqui!) como ‘fofinho’ e ‘cheinho’. Cheinho de que mesmo?

A própria vencedora – uma representante legítima do plus size apela para os diminutivos. “Desde pequena, participo de concursos no Centro de Tradições Gaúchas (CTG), e na escola eu participava de miss broto e brotinho. Fui princesa da Expobom, feira da minha cidade que elege as soberanas. Mesmo já sendo gordinha. Nunca fui magrinha", conta. 

Ah vá... Com um 1,70 de altura, 95 kg, 115 de busto, 92 de cintura e 125 de quadril, ela não pode ser caracterizada uma mulherzinha. Scheila Dorneles é um mulherão com todos os atributos positivos do adjetivo. E isso é bom. Não é ruim.

Toda essa linguagem – seja a dela ou do veículo que publicou o acontecimento – revela  que a sociedade aceita e usa os rótulos do politicamente correto para uns e nega para outros. Mas este é tema para outro texto.

Aqui entra o mesmo questionamento sobre a modelo com síndrome de down. O concurso de modelos gordas quebra o padrão de beleza imposto à sociedade? Sim e não. Sim porque esse concurso é uma proposta bacana e, certamente, ajuda na autoestima de muitas mulheres que são excluídas e não se sentem representadas pela indústria da moda/beleza.

Não porque não há rompimento de padrões. O evento plus size segue o mesmo roteiro das passarelas magrinhas. Alguém enxergou que os gordos também consomem, compram roupas e cosméticos... e criaram um nicho para esse segmento. O mercado as incluiu porque viram que podem ganhar dinheiro e não porque respeita a diversidade de corpos e valoriza os diferentes tipos de beleza. 

Melhor do que antes? Sem dúvida alguma. E minha amiga Vanuza Fernandes espeta um questionamento pertinente. “Você quer o que? Gordinhas e magrinhas dividindo a mesma passarela nos eventos mais tops?” Sim.

Rompimento de padrão, posso estar sendo radical, será quando as passarelas reproduzirem a diversidade existente entre nós mortais no mesmo lugar. Nicho e segmentação mercadológica não são inclusão social nem respeito à diversidade, mas apelo para o consumo. Isso para quem pode consumir.

Acho que estou pedindo muito.

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