segunda-feira, 22 de junho de 2015

O jornalista, o pastor e a rola

__O Malafaia, vai procurar uma rola, vai. Não me enche o saco. Você é um idiota, paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia. 

A resposta do jornalista Ricardo Boechat ao pastor Silas Malafaia (clique aqui) foi mal educada e grosseira, mas - deliciosamente - necessária.

Malafaia experimentou um tipo de tratamento que costuma dispensar a seus adversários de ideias, sejam políticos, artistas ou gente comum.

No rol de quiproquós, o pastor já atacou a Igreja Católica (clique aqui); jornalista (clique aqui), partido político (clique aqui), ministro indicado ao Supremo Tribunal Federal (clique aqui), governador e rede de televisão (clique aqui), cantores evangélicos (clique aqui), político (clique aqui), entre outros desafetos (clique aqui).

Ele se acha no direito de falar o que quer, cobrar posições públicas, enquadrar aliados e ameaçar adversários. 

A enquadrada de Boechat pode ser criticada por muitos, mas é didática, exatamente por fazer com o pastor o que ele faz com muita gente. 

Mas o pastor promete processo judicial (clique aqui) e até usar o poder econômico que tem junto aos donos da Band (clique aqui) para retaliar o jornalista.

Pode ter sido didática a enquadrada de Boechat em Malafaia, mas pelo visto o pastor se recusa a aprender com o episódio.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

As pedras não são de Deus


Uma menina de 11 anos foi agredida com pedras, no início desta semana, quando saía de um culto de candomblé, na zona norte do Rio de Janeiro. O portal Pragmatismo Político afirma que os agressores são evangélicos.

Segundo o portal R7, (o veículo não menciona que os agressores são evangélicos), "seriam dois homens, (que) conseguiram fugir. Pouco antes da agressão, eles teriam xingado e provocado os adeptos do candomblé que estavam com a menina.”

Já reparou como muitos fanáticos religiosos exigem respeito a sua crença e costumes, mas não têm a mesma disposição para respeitar a crença alheia?

Exigir tolerância sendo intolerante é hipocrisia e violência. 

Hipocrisia porque pregam uma coisa e fazem outra. Violência porque não medem esforços para se fazerem aceitos, não aceitando o outro.

Este caso não é isolado, infelizmente. Em 2009, um grupo de jovens atacou e destruiu um centro de umbanda, também no Rio de Janeiro.

Evangélicos que destroem imagens de santos católicos é mais comum do que gostaríamos. A destruição é promovida inclusive por pastores

O estado de beligerância é fomentado, inclusive, por muitas lideranças religiosas. 

E o pior, os fanáticos ainda povoam o Congresso Nacional, aparelhando o estado – que é laico – com suas pregações. 

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é o maior sintoma dessa situação. Ao mesmo tempo em que faz proselitismo religioso, ele consegue renúncia fiscal para templos. A campanha política é permanente.

A renúncia fiscal atende a todos os templos, mas repare na quantidade de igrejas evangélicas. No Brasil, são abertas, por ano, 14 mil igrejas evangélicas. Trata-se também de um negócio lucrativo.

O mau pastor Marco Feliciano, deputado federal por São Paulo, em vídeo - da época em que ele ainda não alisava o cabelo nem fazia tratamento de pele com gel à base de ouro - promove a exclusão. 

O mau pastor já disse - aos berros - que católico não pode sentir o que os evangélicos sentem porque o Deus dos evangélicos “não é o Deus dessa religião morta e fajuta que você está”.

Mau pastor pastor sim. Porque pastor bom guia as suas ovelhas exaltando suas regras e suas qualidades e não atacando a regra dos outros e seus possíveis defeitos. 

Pastor bom sabe conviver com os diferentes porque respeita o semelhante, fazendo-se presente no amor e na bondade; não no ódio e na maldade.

A agressão à menina de 11 anos foi registrada na 38ª Delegacia de Polícia (Brás de Pina), como “lesão corporal e prática de discriminação religiosa”.

Deus não atira pedras. Quem as atira são fieis que seguem cegamente ensinamentos de lideranças que promovem o ódio e não o amor.

As pedras à menina do candomblé têm a mão de muitos pastores e muitas lideranças políticas evangélicas.  

Definitivamente, essas pedras não são de Deus. São apenas do homem e do que ele tem de pior.

Nome aos bois
Silvio Fontana, via Facebook
19/06/2015 - 12h32

É preciso dar nome aos bois. Todos os cristãos não católicos do Brasil parecem ter aceitado se incluir num caldeirão genérico chamado "evangélico". Há que se separar bem as coisas. Tenho amigos, aos quais sempre tratei suas denominações religiosas como protestantes, que passam muito longe dessse sectarismo.

Os Batistas, os Metodistas, Os Presbiterianos, os Adventistas e outras tradicionais e seculares religiões cristãs não devem ser compreendidos como neopentecostais. Os neopentecostais em geral, mas não todos, é quem têm mostrado estas práticas sectárias e segregacionistas. Basta assistir de madrugada a algum pastor eletrônico desses por aí para ver como eles se referem aos cultos afros. É um tal de magia negra, feitiçaria, macumbaria... 

Você disse no seu post que 14 mil novas igrejas (creio que denominações) são abertas todos os anos no Brasil. Só para entender, aqui em Londrina mesmo, no Jardim Santa Rita, tem uma avenida em que existem 16 igrejas evangélicas diferentes. E nenhuma delas é de algumas das tradicionais protestantes que citei acima.

Hoje, qualquer picareta abre uma igreja e se diz pastor. Aqui em casa somos católicos praticantes. Minha mulher teve um grave problema de saúde e sua cunhada, que é presbiteriana, ofereceu que o Pastor Gerson, da 1ª Igreja Presbiteriana de Londrina, orasse por ela. Ela foi e depois das orações o Pastor contou que vive recebendo, e também retribui, visitas de Dom Orlando Brants e Dom Albano Cavalim, que são amigos e coisa e tal. 

A tolerância passa por aí. Omundo seria um tédio se todos tivessem a mesma opinião. E seria um caos se ninguém aceitasse opiniões contrárias. Graças a Deus que entre católicos e protestantes (as Igrejas, que já se enfrentaram no passado) um movimento ecumênico tem se mantido constante. 

Na Missa de Natal, na paróquia São Vicente de Paulo, que frequento, o Padre Rafael iniciou a cerimônia anunciando que o Pastor (não lembro o nome agora) da Igreja Presbiteriana Central e mais alguns membros daquela comunidade, estavam na Igreja para acompanhar a celebração. 

O Pastor, inclusive, participou de várias partes do ritual. E algumas Igrejas cristãs, não católicas, têm participado das Campanhas da Fraternidade da CNBB. O caminho é por aí. Entender que nem todos pensam igual e conviver harmonicamente com estas diferenças.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Inquietudes (263) do Rei

A continuar a escalada conservadora, moralista e oportunista do Congresso Nacional, a separação do Brasil não será mais do sul do restante do país. Se depender do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em parceria com a bancada evangélica, os movimentos vão pedir é a separação dos evangélicos. Ainda bem que, segundo a Constituição Federal, o estado brasileiro é laico. Imagine se não fosse!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Inquietudes (262) do Rei

Há quem afirme que não existe homofobia, que jovens gays morrem tanto quanto morrem jovens heteros. Afirmar isso é desinformação e preconceito. Desinformação porque jovens heteros não morrem por causa da sua orientação sexual. Preconceito porque não se aceita que jovens gays são discriminados e perseguidos. Se o jovem é assassinado por ser gay, que a homofobia seja criminalizada.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A cruz da polêmica


A transexual Viviany Beleboni, que encenou a crucificação na Parada Gay paulistana, neste domingo (dia 7), ainda está no centro da polêmica. Ao usar um símbolo sagrado, Viviany despertou a ira de muitos e a compaixão de outro tanto. 

Em minha página no Facebook, reproduzi a imagem acima que circula pela internet com a provocação “A cruz também é seletiva!” Naturalmente, muitos “amigos” discordaram e outros concordaram. O debate se manteve com argumentos interessantes de ambos os lados. 

Aproveito a discussão ensejada pela imagem e compilo algumas reflexões que fiz, acrescentando outras. Não tenho a pretensão de mudar quem quer que seja, mas que possamos ser capazes de refletir, capacidade que tanto se prega na escola, na família e até na igreja. 

1) As três imagens usam a cruz – símbolo sagrado para o Cristianismo – mas causam reações diferentes. A primeira é a mais aceita porque inclusive faz parte do calendário da Semana Santa. A encenação da Paixão de Cristo revive um momento histórico. Ator global como Cristo para atrair fiéis a um evento comercial também não profana o símbolo sagrado?

2) Neymar “foi crucificado” em julgamento pela sua atuação em campo. Ele é apenas um bode expiatório para a torcida, imprensa e quem quer que o valha. E isso assume a condição de crucificação. __Você vai me pegar para Cristo? A frase é muito comum - dita sem pudor religioso - e revela o desejo de não sofrer. Quem fala isso não rechaça a comparação por não estar à altura de Cristo, mas renega a dor em si que não quer para a sua vida.

3) A transexual Viviany Beleboni não se encaixaria no perfil dos que são pegos para Cristo, o mesmo contexto da frase discutida no item acima? Se sim, por que o estardalhaço para que ela se apresente como crucificada numa parada gay? Como se vê a força de uma imagem é muito grande, mesmo que façamos isso todos os dias com palavras.

4) Conferir status de “pode” às duas primeiras imagens da ilustração e de “não pode” à terceira é tratar um símbolo sagrado de forma seletiva. Se não houvesse seletividade moral nesta discussão, as três estariam banidas por blasfêmia ou liberadas por serem mera liberdade de expressão. No entanto, a interpretação suscita os valores que são pessoais, revelando essa seletividade. A minha. A sua. A nossa.

5) Usar símbolos sagrados em protestos é a receita para causar polêmica. Madona já fez isso em clipe. Joãozinho Trinta já fez isso na passarela do samba.  O cinema já fez isso na telona. A imagem tornou-se clichê. Ainda assim, autoridades religiosas afirmam que não se pode banalizar os símbolos. Perfeito! mas comercializar rosários, cruzes e santinhos abençoados por padres não é banalizar a iconografia católica? Ganhar dinheiro com imagens sacras não é banalizar os símbolos sagrados, com a comercialização da fé? Qual a diferença entre a cruz num protesto e a cruz vendida numa banca de praça, muitas produzidas inclusive sem pagamento de impostos?

6) Ainda sobre símbolos sagrados, consumimos uma representação imagética equivocada de Jesus. Ele jamais poderia ser, de onde vem, alto, loiro, de olhos azuis. O Cristo - com feições nórdicas - atende aos anseios ocidentais, ou seja, é um produto para comercialização conforme o perfil do público consumidor.

7) Segundo relatório do Grupo Gay da Bahia, 312 pessoas do segmento GBLT foram mortos em 2013 e o "O Brasil continua sendo o campeão mundial de crimes homo-transfóbicos. Segundo agências internacionais, 40% dos assassinatos de transexuais e travestis no ano passado (2013) foram cometidos no Brasil.” Na esteira da indignação contra o uso da cruz em protestos, dados como esses parecem não chocar. Não há comoção social de felicianos e malafaias com a morte de gays e de travestis. Esse silêncio prova que a indignação é seletiva. 

8) Há quem afirme que não existe homofobia, que jovens gays morrem tanto quanto morrem jovens heteros. Afirmar isso é desinformação e preconceito. Desinformação porque jovens heteros não morrem por causa da sua orientação sexual. Preconceito porque não se aceita que jovens gays são discriminados e perseguidos. Se o jovem é assassinado por ser gay, que a homofobia seja criminalizada.

9) “__Os gays devem se dar ao respeito.” “__Para exigir o respeito, devem respeitar.” Nesses episódios, argumentos como esses são ditos à exaustão. Exige-se do oprimido o respeito que o opressor não demonstra. __Então, um erro justifica o outro? Se não enxergo o protesto da transexual na cruz como desrespeito, não vou aderir ao discurso fácil de que o desrespeito combate o desrespeito. Aliás, o argumento de dar-se ao respeito também é usado para explicar o estupro. __Também, ela estava bêbada, quase pelada! Não se deu ao respeito. É a eterna tentativa de culpabilizar a vítima, alforriando o algoz.

Como se vê, este é um tema que nunca terá consenso nem deixará de despertar amores e ódios.  E esses – os amores e os ódios – é que revelam quem somos. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Questões para Indiana


“Eu não preciso do feminismo, porque os direitos dos homens são tão importantes quanto os meus, não preciso de leis específicas, regalias, ou privilégios apenas por ser mulher. E não preciso me vitimizar para alcançar meus objetivos.”

Indiana Arlete tem causado furor na internet por ter compartilhado o texto acima, em seu perfil no Facebook.  

Mais que repreensão, ela precisa de ajuda e, por isso, algumas questões podem fazê-la refletir sobre o tema ao qual se aventura, com informação de menos e preconceito demais.

1) A licença maternidade de quatro meses na iniciativa privada e seis meses no serviço público é regalia? Indiana, quando você engravidar e tiver bebê vai abrir mão desse direito e voltar ao trabalho na semana seguinte ao parto? 

2) Você sabia que a lei Maria da Penha, que manda o agressor para a cadeia, não é um privilégio, mas sinal de uma sociedade conservadora e atrasada que agride suas mulheres, apenas por serem mulheres?

3) Você sabia que a cada 90 minutos, no Brasil, uma mulher é assassinada simplesmente pelo fato de ser mulher? A lei Maria da Penha que é específica para punir o agressor não é necessária?

4) Você sabia que o assassino geralmente é o marido, o companheiro, o namorado ou outro familiar da vítima? Ou seja, é sempre um conhecido próximo.

5) Você sabia que o mercado de trabalho paga para a mulher cerca de 30% a menos que paga para os homens? Uma lei que garanta a isonomia salarial é regalia ou necessidade porque as mulheres são discriminadas?

6) Indiana, você diz que “a Mulher no Ocidente não é oprimida!” Então o que explica tanto assassinato e desrespeito à legislação que você chama de regalia e privilégio?

O feminismo das “tetas murcha”, aquele da militante que brada contra a opressão masculina e contra a violência doméstica, deve irritar muito, incomodar demais quem deveria ser atraída para a causa.

Enquanto a mulher – a principal vítima – achar que o feminismo é o problema, o machismo continuará liberado para discriminar e matar.

Pena que muitas mulheres do tipo teta de silicone se darão conta disso muito tarde. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Ao boicotador de O Boticário


Você! Boicotador de O Boticário – um exemplo de cristão - que defende os valores morais e a família tradicional contra essa enxurrada de perversão da sociedade moderna. 

O Boticário não poderia ser mais infame ao colocar casais gays em uma propaganda do dia dos namorados, não é mesmo?

Até porque, como você diz, casais gays não existem.

São parceiros, cúmplices, comparsas da imoralidade, mas nunca casal porque esse é um termo sagrado para denominar a união, conforme os mandamentos de Deus, entre um homem e uma mulher.

Então, responda cristão boicotador de empresa que defende casal gay, nem que for só para vender maquiagem e perfume.

Você boicota empresa que sonega impostos?
Você boicota empresa que não cumpre os direitos do consumidor?
Você boicota empresa que não cumpre os direitos trabalhistas?
Você boicota empresa que polui o meio ambiente e degrada o futuro dos nossos filhos?
Você boicota empresa que paga salário menor para as mulheres?
Você boicota empresa que paga salário menor para negros?

Você boicota amigos que não registram a empregada doméstica e não pagam os benefícios previstos em lei?
Você boicota amigos que estacionam irregularmente em vagas de idosos e de pessoas com deficiência?
Você boicota igrejas cujos pastores e padres exploram a boa fé dos fiéis?

Meu caro boicotador de O Boticário, a estratégia da empresa também deu certo graças ao seu boicote.
Ela tornou-se mais visível, mas não por colocar gays em seu anúncio publicitário.
Ela tornou-se mais visível por revelar os seus valores morais seletivos.
Ela tornou-se mais visível por escancarar o seu boicote a quem trata os gays de forma natural.
A sua preferência por atacar os direitos dos gays (neste caso, de serem visíveis) encobre a sua conivência com empresas que realmente cometem crimes: de sonegação, de não cumprimentos dos direitos trabalhistas, entre tantos.

Você sabe que ser cristão é uma tarefa árdua, mas quando opta por um atalho, revela o oportunismo dos que combatem uma luta fácil. E saiba que Deus está vendo tudo!