quarta-feira, 10 de junho de 2015

A cruz da polêmica


A transexual Viviany Beleboni, que encenou a crucificação na Parada Gay paulistana, neste domingo (dia 7), ainda está no centro da polêmica. Ao usar um símbolo sagrado, Viviany despertou a ira de muitos e a compaixão de outro tanto. 

Em minha página no Facebook, reproduzi a imagem acima que circula pela internet com a provocação “A cruz também é seletiva!” Naturalmente, muitos “amigos” discordaram e outros concordaram. O debate se manteve com argumentos interessantes de ambos os lados. 

Aproveito a discussão ensejada pela imagem e compilo algumas reflexões que fiz, acrescentando outras. Não tenho a pretensão de mudar quem quer que seja, mas que possamos ser capazes de refletir, capacidade que tanto se prega na escola, na família e até na igreja. 

1) As três imagens usam a cruz – símbolo sagrado para o Cristianismo – mas causam reações diferentes. A primeira é a mais aceita porque inclusive faz parte do calendário da Semana Santa. A encenação da Paixão de Cristo revive um momento histórico. Ator global como Cristo para atrair fiéis a um evento comercial também não profana o símbolo sagrado?

2) Neymar “foi crucificado” em julgamento pela sua atuação em campo. Ele é apenas um bode expiatório para a torcida, imprensa e quem quer que o valha. E isso assume a condição de crucificação. __Você vai me pegar para Cristo? A frase é muito comum - dita sem pudor religioso - e revela o desejo de não sofrer. Quem fala isso não rechaça a comparação por não estar à altura de Cristo, mas renega a dor em si que não quer para a sua vida.

3) A transexual Viviany Beleboni não se encaixaria no perfil dos que são pegos para Cristo, o mesmo contexto da frase discutida no item acima? Se sim, por que o estardalhaço para que ela se apresente como crucificada numa parada gay? Como se vê a força de uma imagem é muito grande, mesmo que façamos isso todos os dias com palavras.

4) Conferir status de “pode” às duas primeiras imagens da ilustração e de “não pode” à terceira é tratar um símbolo sagrado de forma seletiva. Se não houvesse seletividade moral nesta discussão, as três estariam banidas por blasfêmia ou liberadas por serem mera liberdade de expressão. No entanto, a interpretação suscita os valores que são pessoais, revelando essa seletividade. A minha. A sua. A nossa.

5) Usar símbolos sagrados em protestos é a receita para causar polêmica. Madona já fez isso em clipe. Joãozinho Trinta já fez isso na passarela do samba.  O cinema já fez isso na telona. A imagem tornou-se clichê. Ainda assim, autoridades religiosas afirmam que não se pode banalizar os símbolos. Perfeito! mas comercializar rosários, cruzes e santinhos abençoados por padres não é banalizar a iconografia católica? Ganhar dinheiro com imagens sacras não é banalizar os símbolos sagrados, com a comercialização da fé? Qual a diferença entre a cruz num protesto e a cruz vendida numa banca de praça, muitas produzidas inclusive sem pagamento de impostos?

6) Ainda sobre símbolos sagrados, consumimos uma representação imagética equivocada de Jesus. Ele jamais poderia ser, de onde vem, alto, loiro, de olhos azuis. O Cristo - com feições nórdicas - atende aos anseios ocidentais, ou seja, é um produto para comercialização conforme o perfil do público consumidor.

7) Segundo relatório do Grupo Gay da Bahia, 312 pessoas do segmento GBLT foram mortos em 2013 e o "O Brasil continua sendo o campeão mundial de crimes homo-transfóbicos. Segundo agências internacionais, 40% dos assassinatos de transexuais e travestis no ano passado (2013) foram cometidos no Brasil.” Na esteira da indignação contra o uso da cruz em protestos, dados como esses parecem não chocar. Não há comoção social de felicianos e malafaias com a morte de gays e de travestis. Esse silêncio prova que a indignação é seletiva. 

8) Há quem afirme que não existe homofobia, que jovens gays morrem tanto quanto morrem jovens heteros. Afirmar isso é desinformação e preconceito. Desinformação porque jovens heteros não morrem por causa da sua orientação sexual. Preconceito porque não se aceita que jovens gays são discriminados e perseguidos. Se o jovem é assassinado por ser gay, que a homofobia seja criminalizada.

9) “__Os gays devem se dar ao respeito.” “__Para exigir o respeito, devem respeitar.” Nesses episódios, argumentos como esses são ditos à exaustão. Exige-se do oprimido o respeito que o opressor não demonstra. __Então, um erro justifica o outro? Se não enxergo o protesto da transexual na cruz como desrespeito, não vou aderir ao discurso fácil de que o desrespeito combate o desrespeito. Aliás, o argumento de dar-se ao respeito também é usado para explicar o estupro. __Também, ela estava bêbada, quase pelada! Não se deu ao respeito. É a eterna tentativa de culpabilizar a vítima, alforriando o algoz.

Como se vê, este é um tema que nunca terá consenso nem deixará de despertar amores e ódios.  E esses – os amores e os ódios – é que revelam quem somos. 

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