quinta-feira, 23 de julho de 2015

Absurdo provável


“Um dia, chegaremos a um estágio em que será possível determinar se um bebê, ainda no útero, tem tendências à criminalidade, e se sim, a mãe não terá permissão para dar à luz.” 

Sério! Isso não é notícia isenta de verdade publicada pelo site Sensacionalista. A afirmação é de ninguém menos que o relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171, a PEC da maioridade penal. O relator, o deputado Laerte Bessa (PR-DF), falou ao Jornal The Guardian, da Inglaterra. As informações são do Portal Fórum.

A fala do deputado consiste em um absurdo, mas não um qualquer. É um absurdo provável. Façamos um exercício meramente especulativo. Como o Congresso Nacional legislaria em um causa como essa? A legalização do aborto no Brasil não passa no Legislativo Nacional por conta do conservadorismo religioso e do oportunismo eleitoral. 

Então como esse mesmo Congresso proibiria mulheres de terem seus filhos porque foram identificados genes que indicam tendências à criminalidade? Tomando como base o argumento largamente difundido “bandido bom é bandido morto”, não é de se estranhar que - um dia - algo como o exposto pelo deputado-relator possa ser aprovado. 

Majoritariamente, a sociedade brasileira, por causa de dogmas religiosos, diz defender a vida e ser contrária ao aborto, mas há muita gente contrária ao aborto e favorável à pena de morte; contrária ao aborto e favorável ao linchamento de suspeitos de assaltos; contrária ao aborto e favorável a direitos humanos somente para humanos direitos. O que é mesmo um humano direito?

A contradição humana alimenta os demônios internos e estes aparecem sem seus donos perceberem. Muitos se dizem cristãos, mas frequentar missas e cultos não é garantia de bondade. Louvar ao senhor com cânticos, orações uma vez por semana ou mais não torna ninguém melhor. 

Abortar bebês com tendências à criminalidade seria, portanto, uma causa justa e justificável, para os fanáticos de sempre. E, infelizmente, esses não são poucos. Os fundamentalistas de amanhã, que avalizariam medidas como esta, são os mesmos que, hoje, aplaudem a execução de um suspeito ao vivo, em rede de televisão; e vibram com o acusado espancado amarrado a um poste. 

Se o deputado-relator acredita em aborto de bebê por ter tendências à criminalidade... 

?por que não abortar bebês com tendências a serem políticos corruptos?
?por que não abortar bebês com tendências a serem empresários corruptores?
?por que não abortar bebês com tendências a serem maus cidadãos?

Muitos que criticam a defesa do direito da mulher ao aborto por questões pessoais, financeiras, familiares e sociais, não pensariam duas vezes para avalizar o aborto de bebês com tendências à criminalidade. Seria legítima defesa coletiva? O fato é que a defesa da vida vale para todos até que o dono dela se torne uma ameaça, mesmo em potencial.

Crédito da imagem: Camille Allen “Artist Dolls and Sculptures”.

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