terça-feira, 14 de julho de 2015

Marteladas por engano

Reprodução G1

A justiça não funciona. Direitos humanos para humanos direitos. O cidadão tem de fazer algum coisa, tem de sair do comodismo. Bandido bom é bandido morto. Quem não deve, não teme. Político nenhum presta. Partido só tem corrupto.

Um motorista de ônibus de Curitiba ouviu os conselhos do conservadorismo atual – e de sempre – e fez justiça com as próprias mãos. 
Ele perseguiu um adolescente de 16 anos e desferiu-lhe algumas marteladas. A acusação? O adolescente não teria pagado o bilhete da corrida.
Detalhe: o adolescente agredido pelo justiceiro da companhia de ônibus não estava no coletivo, ou seja, foi agredido por engano.
A informação é do G1. “Ele [o motorista] perseguia outros dois jovens que, segundo o agressor, entraram no coletivo sem pagar, mas acabou se confundido e agredindo outro rapaz.”

Então quer dizer que se fosse o verdadeiro adolescente, as marretadas estariam liberadas?
Não! Um estado é democrático e de direito por fazer funcionar os direitos e os deveres do cidadão.
Em caso de não funcionamento, é necessário fazer as regras funcionarem pelas vias institucionais.
A história mostra que quando os ensandecidos assumem o poder com as próprias mãos, o controle escorrega entre os dedos. 

Você pode estar se perguntando o que tem a ver justiçamento com política?
Tem tudo a ver exatamente porque o debate político no país está contaminado pelo exacerbamento ideológico, fazendo com que os conservadores saiam do armário.
Desde 2002, quando Lula chegou à Presidência da República, o discurso de ódio tem prevalecido e contaminado a sociedade como um todo. 
Esse ódio é destilado por lideranças da oposição, pelas bancadas fundamentalistas do Congresso Nacional, por empresários de vários setores, por pseudo lideranças religiosas. 
E por você que compartilha tudo isso pela internet.

O ódio tem nome: ascensão social do pobre. Lembram-se da bolsa esmola que estimula a vagabundagem?
O ódio tem nome: mudança de classe social. Quem deixou um operário de nove dedos transformar os aeroportos em rodoviárias?
O ódio tem nome: casamento gay. Deus criou o casamento para o homem e a mulher, certo? Querem destruir a família tradicional.
O ódio tem nome: a primeira presidenta. Como pode uma terrorista assumir o poder?  O golpe é filho do ódio. Se assumiu, não termina o mandato!
O ódio tem nome: negro na universidade. As cotas premiam os que não se esforçam. Tem de ensinar a pescar, não é esse o discurso? 
Uma coisa está interligada à outra porque as atitudes são políticas e ao serem confrontados, os demônios ganham vida na forma de agressão on-line, linchamento e marteladas.

O episódio de Curitiba está longe de ser isolado e revela que o cidadão comum está disposto a fazer justiça com as próprias mãos.
Mas o que esperar de uma sociedade na qual apresentador de TV justifica como “legítima defesa coletiva” amarrar um suspeito de assalto a um poste? Raquel Sheherazade tem parte nas marteladas que o adolescente de Curitiba levou.

Mas o que esperar de uma sociedade na qual um apresentador de TV aplaude a execução ao vivo de um suspeito em perseguição? Marcelo Rezende tem parte nas marteladas que o adolescente de Curitiba levou.

Mas o que esperar de uma sociedade cujo presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, quando perde uma votação, realiza manobras regimentais para conseguir o que quer, mesmo passando por cima de regulamentos e desprezando seus pares?
Cunha fez isso com a votação do projeto que proibia doação de empresas para campanhas políticas e com o projeto de redução da maioridade penal. Ao perder, Cunha revirou o regimento da Câmara e conseguiu aprovar o que queria.
Se o presidente da Câmara Federal não respeita regras, o que esperar do cidadão comum? 

Os exemplos acima – péssimos para qualquer sociedade democrática e civilizada – mostram que o discurso de ódio está colhendo seus frutos.
As marteladas de Curitiba são pedagógicas e mostram que ainda temos tempo para rever o discurso de ódio e canalizar essa energia para algo mais benéfico.
Não me canso de dizer e repito mais uma vez: quando a sociedade dá aval à justiça com as próprias mãos, qualquer um pode ser a vítima.
Com a palavra, o adolescente de Curitiba que levou algumas marteladas por engano!

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