segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sobre protestos e agressões


A troca de agressões pela internet virou rotina. Militantes e simpatizantes de partidos políticos trocam ofensas, xingam-se mutuamente, agridem-se verbalmente. Infelizmente, estabelecer um debate sereno e equilibrado, buscando argumentos convincentes virou tarefa árdua. Para não se chatear, à vezes, o silêncio é a melhor resposta.

No entanto, essa beligerância saiu do monitor para as ruas. O enfrentamento virtual tornou-se real na forma de socos, chutes e bandeiradas. Recentemente, o líder da página Revoltados On Line, Marcello Reis, se meteu em confusão com militantes que participavam do Congresso do PT, na Bahia. Manifestantes contra o governo e a favor já se pegaram em outras ocasiões.

E a moda parece , agora, agredir autoridades do governo federal. O secretário-geral da Presidência da República, Miguel Rosseto, foi hostilizado em um avião. O ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, Guido Mantega, foi hostilizado em três ocasiões. O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha também foi hostilizado em um restaurante, enquanto almoçava. Para não ficar apenas em exemplos de nomes do governo petista, cito o episódio que envolveu o deputado federal Marco Feliciano. Ele também foi hostilizado em um avião. 

Protesto contra qualquer autoridade é legítimo, necessário e faz parte da democracia, mas isso pede lugar adequado. Decididamente, avião e restaurantes - quando as autoridades estão enquanto cidadãos comuns - não são o melhor espaço para isso. 

Toda vez que vejo esse tipo de manifestação me pergunto: por que os insatisfeitos não participam dos espaços institucionais de participação popular e social? Como são os debates e onde ocorrem as diretrizes para mudar os rumos do país? Por que não ocupar o Congresso, as Assembleias Legislativas e as Câmaras de Vereadores?

Agredir verbal ou fisicamente uma autoridade, da esquerda ou da direita, quando ela não está a serviço do cargo, não é exemplo de participação popular. É exemplo de falta de educação e sintoma de despolitização. Política boa se faz nos espaços apropriados. É mais fácil agredir uma autoridade do que participar de entidades sociais e populares que têm assento nos órgãos institucionais que definem as diretrizes das políticas públicas.

Há diferenças gritantes entre um “protesto” em um restaurante ou avião e um protesto em frente ao Planalto, ao palácio do governo do estado, ao ministério ou em uma avenida por onde passará a comitiva. O primeiro é um desabafo e seu poder político é pequeno - exatamente - por pender para a agressão pessoal. O segundo é efetivo porque é uma atitude contra o político e sua política.

Lamento que parte da sociedade ache que grosseria em avião e restaurante seja uma forma democrática de participação. Isso é uma distorção do debate político. Esse tipo de atitude é perigosa porque revela intolerância que flerta com o preconceito e a violência. Qual o limite? Não há uma barreira intransponível. E isso é perigoso.

Não são exatamente o preconceito e a intolerância que motivam a violência contra praticantes de cultos afros, homossexuais, negros e mulheres? A energia é a mesma, o foco é que muda conforme o ódio de "quem protesta". Assim, qualquer um pode ser a vítima.

Crédito da imagem: Obra “Saturno devorando a un hijo" (1815). Goya (1746 – 1828).

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