segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Preconceito (e discriminação) linguístico

"A Bandeirantes especializou-se no "caipirês", uma forma de cafonismo caipira com vocabulários pobres e com o horrível sotaque dos cafundós do Estado de São Paulo." 

A opinião contra as características do dialeto caipira, na Rádio Bandeirantes, é de André Araújo, no site de Luis Nassif, no GGN. O autor embrulha num pacote só todas as características do dialeto para atacar a nova onda de locutores que puxam o r quando falam. Ter sotaque caipira não é sinônimo de domínio pobre do vocabulário. Isso é consequência, entre outros, da falta de leitura. Reproduzo abaixo o comentário que fiz, na referida página.

O autorrr do texto presta um desserrrviço à língua porrrtuguesa no Brasil e aos veículos de comunicação ao reduzirrr a riqueza e a diverrrrsidade do porrrtuguês brasileiro. O orrrgulho do sotaque é uma atitude diante da língua e da linguagem. Quem disse que o sotaque paulistano e o carioca são mais bonitos e, por isso, representantes nacionais? Quem definiu que o sotaque caipira é vulgarrr e boçal? A elite de sempre que trata uns com prestígio e outros de forma pejorativa. 

O padrão de qualidade de "vozes mais educadas" revela todo o preconceito linguístico do autorrr, que arrota os padrões pretensamente de prestígio em contraposição à fala do caipira. Porrr que o popularrr é atacado violentamente desta forrrma? 

Sugiro ao autorrr lerrr mais sobre a sociolinguística para entenderrr que o preconceito linguístico pode serrr combatido com atitude. Terrr orrrgulho do sotaque caipira não é problema. Problema é acharrr que a fala do outro é ruim porrrque não foi enlatada para serrr vendida porrr um veículo supostamente nacional.  

Reinaldo Césarrr Zanarrrdi, jorrrnalista, professorrr de Jorrrnalismo e doutorando em Estudos da Linguagem. Londrina/PR.

Um comentário:

Vanderci Aguilera disse...

Parabéns, Reinaldo. A análise está perfeita e os argumentos convincentes. Precisamos de um mundo mais tolerante, mais compreensivo, mais inteligente. Quem ignora ou desqualifica as variantes de uma língua, precisa ler mais, se instruir mais, "abrir a cabeça" para o mundo ao seu redor. Será que já ouviram dizer que toda unanimidade é burra? E que a diferença é que faz a beleza da vida? Sejamos mais fraternos, vamos viver a vida sem preconceitos, porque assim teremos um mundo mais feliz.
Fico muito feliz quando vejo meus alunos colocando em prática o que discutimos em sala de aula. Um grande abraço.