sábado, 31 de outubro de 2015

Aí, o saci

Aí... um grupo de crianças, em pleno Brasil, bate à porta de uma casa na periferia.

__Doce ou travessura? 


Repetem elas o mantra da parte de cima das Américas.
O dono da casa responde.

__Meninos e meninas... não tem doce nem travessura. Vão procurar o saci!

E fecha a porta.

Inquietudes (283) do Rei

O problema não é a doutrinação, mas a doutrinação segundo o outro, porque - para os grupos majoritários - doutrina boa é doutrina minha.

Diversão


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Inquietudes (282) do Rei

Por que todo machista ou racista que faz piada machista ou racista, quando confrontado em seu machismo ou racismo, afirma que era uma brincadeira de mau gosto e que não teve a intenção de ofender?

Doutrina boa é doutrina minha


Volta e meia uma palavra é alçada à condição de estrela nacional. É endeusada ou encapetada, conforme as circunstâncias. E a palavra da moda – na atual polarização política – é doutrinação. Felicianos e bolsonaros reclamam da doutrinação feminista na prova do Enem. Deputados religiosos conservadores reclamam da doutrinação de gênero nas escolas. Políticos reclamam da doutrinação político-ideológica também nas escolas. Para esses, a doutrinação é uma espécie de lavagem cerebral.

No Paraná, deputados estaduais apresentaram projeto de lei para proibir que professores das escolas públicas e particulares façam “doutrinação” em temas como gênero, sexo, sexualidade e política. A proposta é assinada por 12 parlamentares, a maioria da bancada evangélica. 

Doutrinação é efeito de doutrinar que é efeito de instruir uma doutrina. E doutrina é, segundo o Dicionário Michaelis, “1 Ensino que se dá sobre qualquer matéria. 2 Conjunto de princípios em que se baseia um sistema religioso, político ou filosófico. 3 Instrução. 4 Opinião em assuntos científicos. 5 Opinião de autores. 6 A doutrina cristã, exposta em catecismos.”

Isso significa dizer que qualquer pessoa doutrina, quando ensina, instrui e/ou opina. Ao entender o significado de doutrinação ficam mais claros os receios de políticos conservadores, e seus correspondentes nas igrejas, sobre os efeitos de um ensino doutrinador. O problema não é doutrinar, mas doutrinar segundo os princípios dos quais os grupos majoritários discordam e fazem oposição. As minorias amedrontam quem sempre doutrinou.

O ensino – sempre ouvimos isto – tem de desenvolver o senso crítico, mas não ao ponto de se voltar contra os políticos que usufruem da falta de capacidade crítica.

O ensino – sempre ouvimos isto – tem de formar cidadãos, mas não ao ponto de se voltarem contra os políticos que preferem lidar com seus eleitores de forma assistencialista.

O ensino – sempre ouvimos isto – tem de emancipar os jovens para serem adultos conscientes, mas não ao ponto destes exigirem um novo modelo de representação político-partidária.

Para quem sempre doutrinou é impossível admitir que outros grupos – principalmente adversários - façam o mesmo, não porque também doutrinariam, mas porque a doutrina seria outra.

Quem sempre doutrinou pelo machismo é inconcebível que se doutrine pelo feminismo ou pela ideologia de gênero.

Quem sempre doutrinou pelos preceitos do homem, é inconcebível que se doutrine segundo os preceitos das mulheres e dos gays.

Quem sempre doutrinou pelos princípios do branco, é inconcebível que se doutrine segundo os princípios de outra raça, principalmente, a negra.

Quem sempre doutrinou pelas causas capitalistas, é inconcebível que se doutrine pelas causas socialistas.

Quem sempre doutrinou pelos dogmas cristãos, é inconcebível que se doutrine pelos dogmas de outras religiões.

A elite brasileira é apegada a sua raiz: homem, heterossexual, branco, cristão e capitalista. Qualquer um que fuja deste padrão é encarado como ameaça.

O problema não é a doutrinação, mas a doutrinação segundo o outro porque - para esses grupos - doutrina boa é doutrina minha.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Inquietudes (281) do Rei

Então quer dizer que os deputados federais Marco Feliciano e Jair Bolsonaro andam rosnando contra o Ministério da Educação no caso da “doutrinação feminista” do Enem! Vossas Excrescências - digo, Excelências - reclamam do suposto proselitismo do governo, mas não se cansam de fazer proselitismo do qual são adeptos: doutrinação religiosa em pleno Estado laico. Sentar-se sobre a própria doutrinação apontando a alheia é, no mínimo, hipocrisia. Proselitismo bom é aquele com o qual concordo, certo, deputados?

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Consciência boa é consciência invisível


Então quer dizer que a luta do movimento negro é igual à luta do branco? O cidadão negro tem as mesmas oportunidades que o cidadão amarelo? Os navios negreiros chegaram ao Brasil do mesmo modo que o Kasato Maru?

Esses questionamentos me inquietam quando leio que “não precisamos de um dia da consciência negra, branca, parda, amarela, albina... Precisamos de 365 dias de consciência humana.” Todo cidadão é igual no exercício da cidadania? Apenas na legislação, cuja letra – sem prática – é morta.

A frase do cartaz vai e volta, principalmente, quando se aproxima o feriado da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, data oficializada em muitos municípios e estados. Não se engane. A frase do cartaz, por melhor intenção de seu redator, revela uma falsa defesa dos negros.

Ao igualar negros, brancos, amarelos e albinos (pardo é variação do negro e onde estão os índios?) excluem-se os conflitos raciais existentes em nossa sociedade. Negar esses conflitos é típico de uma sociedade racista que afirma viver uma democracia racial. Definitivamente, o Brasil não vive isso.

Negros, brancos, amarelos e albinos são humanos, mas a condição social não é a mesma para todos. Os negros são preteridos no Brasil. O negro estuda menos e ganha menos, exatamente porque tem menos oportunidades. O debate não é sobre capacidade. Simples assim.

Nivelar a luta do negro com a de todos os humanos é negar os problemas enfrentados pelo segmento; é tornar a luta e o movimento secundários; é tornar o negro invisível, tão ao gosto da elite que domina desde sempre.

Nesta semana, o jornalista Alexandre Garcia disse que o Brasil “não era racista até criarem as cotas”. O cinismo da elite brasileira não tem limites. As cotas não criaram o racismo. Elas fizeram-no emergir por conta do ódio da parcela branca que não quer dividir direitos.

Na lógica perversa de Alexandre Garcia, que representa milhões - infelizmente, o Brasil não teria racismo desde que os negros se contentassem em permanecer onde ficaram por alguns séculos, na senzala. O negro visível incomoda a elite branca preconceituosa.

“Precisamos de 365 dias de consciência humana.” Esta é uma vontade legítima, mas associá-la ao abafamento da consciência negra é tirar do negro a sua própria consciência. Por isso, quando compartilhar algo do tipo, mesmo com boas intenções, reflita antes.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Hipocrisia transparente


“Cunha é corrupto mas está do nosso lado!” 
A frase do cartaz diz muito sobre os que querem – a qualquer preço – o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
O que salta ao bom senso é que não se trata de combate à corrupção; desde junho de 2013 - quando o gigante acordou - tenho dito isso.
Trata-se de tirar o PT do governo e não combater a corrupção.

Os pontos negativos dos governos Lula e Dilma são muitos, mas nenhum serve para justificar o afastamento da presidenta democraticamente eleita, sem ser classificado como golpe.
Sim, isso mesmo.
Tirar Dilma do poder – que não está envolvida nos escândalos e que criou mecanismos para que fossem investigados – não tem outro nome.
Isso se chama golpe.
Quem defende isso é golpista.
Simples assim.

Apoiar um corrupto para supostamente tirar outro corrupto do poder é hipocrisia.
É a mesma coisa que defender o combate ao estupro, abraçado a Alexandre Frota, que confessou um estupro.
É a mesma coisa que atacar a pena de morte, abraçado a Jair Bolsonaro.
É a mesma coisa que defender o casamento gay, abraçado a Silas Malafaia.
E por que defender a queda de Dilma, acusando-a de corrupção, abraçado a um corrupto?

As pistas estão no ódio de parte da sociedade brasileira, aquela que não gosta de ser chamada de elite branca.
Aquela que diz que o Brasil vive democracia racial; que mulheres não são vítimas do machismo; que os gays não se dão ao respeito; que lugar de pobre é na periferia.
A luta de classes nunca recrudesceu e essa elite branca diz que foi Lula quem a inventou, para dividir o Brasil.

Você vai contra argumentar que muitos pretos, pobres, mulheres e gays também odeiam o PT.
Sim, o ódio também foi terceirizado pelas concessões públicas de TV e de rádio que fazem a verdadeira oposição, como disse uma tal Judith Brito quando ocupava a presidência de uma certa Associação Nacional de Jornais.
O ódio não é homogêneo, mas é infectante.

O antídoto contra isso está explícito na foto acima.
“Cunha é corrupto mas está do nosso lado!” 
A hipocrisia quando se torna transparente deixa de hipocrisia e se torna maldade.
E o mal evidente é mais fácil de ser combatido.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aí, o trabalho em grupo

Já que o dia é do professor...

Aí... o estudante levanta a mão e pergunta sobre o trabalho em grupo.

__Prof, o trabalho pode ser de quatro?
__Pode, pode fazer o trabalho de quatro, sentado, em pé, deitado, mas tem de ser em trio como eu já falei.


Há!

Ser professor é


Ser professor é ouvir do estudante __prof, hoje vai ter coisa importante na sua aula?; e vê-lo algum tempo depois comprometido com o trabalhos em horários que ele jamais imaginaria estudar.

Ser professor é ouvir do estudante __prof, pra que tenho de estudar isso se não vou usar no mercado?; e ouvir dele muito tempo depois como profissional __eu deveria ter estudado mais aquelas teorias.

Ser professor é ouvir do estudante __prof, vamos fazer semana do saco cheio?; e ouvir dele no bimestre seguinte __prof, aumenta o prazo para entregar o trabalho.

Ser professor é ouvir do estudante __não tem como fazer esse trabalho, a câmera não funcionou, o entrevistado desmarcou, o técnico do laboratório faltou, o grupo não se reuniu. Ah... como queria estar formado!; e ouvir no ano seguinte à formatura __ai que saudades da facul, prof.

Ser professor é ouvir do estudante reclamações e queixas sobre seus prazos, tipos de trabalhos exigidos, leitura e, mesmo assim, ser um dos professores homenageados pela turma toda.

Ser professor é falar __ser professor é uma maravilha, pena que existem estudantes.; e se emocionar quando um estudante supera suas dificuldades com a língua portuguesa, produz textos com enfoques adequados e sustenta suas afirmações e interpretações com dados e fontes pertinentes.

Ser professor é falar __essa turma é ruim demais.; e pouco tempo depois queimar a língua com a qualidade dos trabalhos apresentados.

Ser professor é falar ao estudante __saia do senso comum, qualquer um pensa e diz isso.; e constatar tempos depois um senso crítico responsável.

Ser professor é estar sem paciência e dar respostas atravessadas, mas reconhecer os exageros, sem medo de perder a autoridade. 

Ser professor é um desafio, principalmente, em um país que diz valorizar a educação, mas não coloca isso em prática.

Ser professor é um desafio, principalmente, para revelar ao estudante que existe um mundo muito maior que o mercado de trabalho.

Ser professor é um desafio, principalmente, quando você desenvolve técnicas e habilidades para se vender, no mercado de trabalho, a mão de obra e não a própria consciência.

Ser professor é um desafio, principalmente, para não ser o dono da verdade e instigar o estudante a construir as dele, equilibrando rigidez e afeto.

Ser professor é um desafio.
E eu gosto de desafios.

Ouro Preto


Aí, os joelhos

Aí... eu liguei ao ortopedista da família, solicitando uma consulta.

Tenho um desvio na terceira vértebra lombar, que volta e meia reclama.

Do outro lado, a secretária toda solícita.

__O senhor já é paciente do doutor?
__Não, mas minha esposa e enteados são é há bastante tempo.
__Qual o seu problema?
__Tenho dor na coluna na região lombar.

__Ah... então não vai dar. O doutor não atende mais coluna. Ele está atendendo somente joelhos. 

Respirei fundo, contei até três.

E não adiantou.

Eu tive de responder.

__Não tem problema, eu levo os joelhos junto na consulta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Aí, o nada e o tudo

Aí... eu peço ajuda para minha esposa auxiliar na formatação da Guia da Previdência Social (GPS) da funcionária lá de casa.

A Marlene me responde, levantando do sofá.

__Mas você não faz nada sem mim mesmo, né!

Eu tive de responder.

__Não é isso não. É que eu faço tudo com você. Há!

Aleijadinho


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Inquietudes (280) do Rei

Então quer dizer que o Brasil quer o fim da corrupção? O brasileiro foi para as ruas protestar em julho de 2013; voltou diversas vezes depois para pedir o fim do “governo mais corrupto da história”? Dilma sairia do Planalto impedida, renunciada ou morta? O Brasil queria, então, o fim da corrupção? O que aconteceu com este mesmo Brasil, agora que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi delatado por vários bandidos confessos? O que aconteceu com este Brasil, agora que foi descoberta uma conta na Suíça em nome do mesmo presidente da Câmara? A seletividade no combate à corrupção é um mal tão perverso quanto a própria corrupção.