sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Consciência boa é consciência invisível


Então quer dizer que a luta do movimento negro é igual à luta do branco? O cidadão negro tem as mesmas oportunidades que o cidadão amarelo? Os navios negreiros chegaram ao Brasil do mesmo modo que o Kasato Maru?

Esses questionamentos me inquietam quando leio que “não precisamos de um dia da consciência negra, branca, parda, amarela, albina... Precisamos de 365 dias de consciência humana.” Todo cidadão é igual no exercício da cidadania? Apenas na legislação, cuja letra – sem prática – é morta.

A frase do cartaz vai e volta, principalmente, quando se aproxima o feriado da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, data oficializada em muitos municípios e estados. Não se engane. A frase do cartaz, por melhor intenção de seu redator, revela uma falsa defesa dos negros.

Ao igualar negros, brancos, amarelos e albinos (pardo é variação do negro e onde estão os índios?) excluem-se os conflitos raciais existentes em nossa sociedade. Negar esses conflitos é típico de uma sociedade racista que afirma viver uma democracia racial. Definitivamente, o Brasil não vive isso.

Negros, brancos, amarelos e albinos são humanos, mas a condição social não é a mesma para todos. Os negros são preteridos no Brasil. O negro estuda menos e ganha menos, exatamente porque tem menos oportunidades. O debate não é sobre capacidade. Simples assim.

Nivelar a luta do negro com a de todos os humanos é negar os problemas enfrentados pelo segmento; é tornar a luta e o movimento secundários; é tornar o negro invisível, tão ao gosto da elite que domina desde sempre.

Nesta semana, o jornalista Alexandre Garcia disse que o Brasil “não era racista até criarem as cotas”. O cinismo da elite brasileira não tem limites. As cotas não criaram o racismo. Elas fizeram-no emergir por conta do ódio da parcela branca que não quer dividir direitos.

Na lógica perversa de Alexandre Garcia, que representa milhões - infelizmente, o Brasil não teria racismo desde que os negros se contentassem em permanecer onde ficaram por alguns séculos, na senzala. O negro visível incomoda a elite branca preconceituosa.

“Precisamos de 365 dias de consciência humana.” Esta é uma vontade legítima, mas associá-la ao abafamento da consciência negra é tirar do negro a sua própria consciência. Por isso, quando compartilhar algo do tipo, mesmo com boas intenções, reflita antes.

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