terça-feira, 27 de outubro de 2015

Doutrina boa é doutrina minha


Volta e meia uma palavra é alçada à condição de estrela nacional. É endeusada ou encapetada, conforme as circunstâncias. E a palavra da moda – na atual polarização política – é doutrinação. Felicianos e bolsonaros reclamam da doutrinação feminista na prova do Enem. Deputados religiosos conservadores reclamam da doutrinação de gênero nas escolas. Políticos reclamam da doutrinação político-ideológica também nas escolas. Para esses, a doutrinação é uma espécie de lavagem cerebral.

No Paraná, deputados estaduais apresentaram projeto de lei para proibir que professores das escolas públicas e particulares façam “doutrinação” em temas como gênero, sexo, sexualidade e política. A proposta é assinada por 12 parlamentares, a maioria da bancada evangélica. 

Doutrinação é efeito de doutrinar que é efeito de instruir uma doutrina. E doutrina é, segundo o Dicionário Michaelis, “1 Ensino que se dá sobre qualquer matéria. 2 Conjunto de princípios em que se baseia um sistema religioso, político ou filosófico. 3 Instrução. 4 Opinião em assuntos científicos. 5 Opinião de autores. 6 A doutrina cristã, exposta em catecismos.”

Isso significa dizer que qualquer pessoa doutrina, quando ensina, instrui e/ou opina. Ao entender o significado de doutrinação ficam mais claros os receios de políticos conservadores, e seus correspondentes nas igrejas, sobre os efeitos de um ensino doutrinador. O problema não é doutrinar, mas doutrinar segundo os princípios dos quais os grupos majoritários discordam e fazem oposição. As minorias amedrontam quem sempre doutrinou.

O ensino – sempre ouvimos isto – tem de desenvolver o senso crítico, mas não ao ponto de se voltar contra os políticos que usufruem da falta de capacidade crítica.

O ensino – sempre ouvimos isto – tem de formar cidadãos, mas não ao ponto de se voltarem contra os políticos que preferem lidar com seus eleitores de forma assistencialista.

O ensino – sempre ouvimos isto – tem de emancipar os jovens para serem adultos conscientes, mas não ao ponto destes exigirem um novo modelo de representação político-partidária.

Para quem sempre doutrinou é impossível admitir que outros grupos – principalmente adversários - façam o mesmo, não porque também doutrinariam, mas porque a doutrina seria outra.

Quem sempre doutrinou pelo machismo é inconcebível que se doutrine pelo feminismo ou pela ideologia de gênero.

Quem sempre doutrinou pelos preceitos do homem, é inconcebível que se doutrine segundo os preceitos das mulheres e dos gays.

Quem sempre doutrinou pelos princípios do branco, é inconcebível que se doutrine segundo os princípios de outra raça, principalmente, a negra.

Quem sempre doutrinou pelas causas capitalistas, é inconcebível que se doutrine pelas causas socialistas.

Quem sempre doutrinou pelos dogmas cristãos, é inconcebível que se doutrine pelos dogmas de outras religiões.

A elite brasileira é apegada a sua raiz: homem, heterossexual, branco, cristão e capitalista. Qualquer um que fuja deste padrão é encarado como ameaça.

O problema não é a doutrinação, mas a doutrinação segundo o outro porque - para esses grupos - doutrina boa é doutrina minha.

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