terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ah, a ideologia


Toda vez que leio ou ouço alguém acusando o outro de ser ideológico, sinto um frio correr pela espinha. O cidadão diz que não tem ideologia, mas afirmar isso não é um posicionamento ideológico? A qual ideologia esta negação se presta?

Na sociedade atual, um contingente importante (assembleias legislativas, igrejas, Congresso Nacional) nega a discussão, por exemplo, da ideologia de gênero, do feminismo e da religião na escola. 

Ao não permitir que ideologias ‘tidas como minorias’ (na falta de um termo melhor, uso este mesmo) sejam explicitadas, as dominantes continuarão prevalecendo. Dizer que não tem ideologia é uma falácia, até porque este é um posicionamento ideológico. 

A linguagem é essencialmente ideológica e parte constituinte do ser humano, independentemente do conceito usado para o termo, já que não há um consenso pacífico para o que venha ser ideologia. Isso vai além, por exemplo, da relação capitalismo-comunismo.

A dominação não se dá apenas pelo sistema político e pelo poder econômico. O tema é mais amplo e, por isso, negar o debate sobre ideologia das ‘minorias’ na escola é fazer prevalecer uma ideologia nas relações de dominação.

Quando se nega o debate sobre o gênero e todas as suas implicações sociais, prevalece a ideologia machista (e não é só o homem machista, mulheres também o são). E quem sempre dominou e como dominou? A violência contra a mulher, travestis, gays, transexuais é fruto do que mesmo?

Este raciocínio pode ser aplicado à religião; ao negar a abordagem aos cultos afros e aos ateus, prevalece qual ideologia religiosa? A intolerância religiosa é fruto do que senão das relações de dominação de sempre? 

Naturalmente este tema - seus conceitos e contradições - não se esgota em poucas palavras e, por isso, mesmo é que precisa de mais perguntas em busca de respostas, enfim mais debate

No entanto, o que fazer quando a ideologia das 'minorias' assusta a maioria, por não saber lidar com isso? A a repercussão ao pensamento de Simone de Beauvoir, em uma questão do Enem, é um sintoma deste estado de indigência mental.

Empurrar a afirmação de Beauvoir - não se nasce mulher, torna-se mulher” - ao aspecto meramente biológico, desconsiderando a complexidade social e de papéis é uma espécie de interdição do debate. 

É por isso que muitos não nascem estúpidos, tornam-se e, ao longo da vida, arrebanham outros para a causa. E as redes sociais se ocupam de tornar pública a estupidez que antes era privada.

Imagem: "O pensador", de Augusto Rodin.

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