segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sobre bananas, justiça e consciência


Dois entregadores - William Dias Delfim e Leonardo Valentim Silva – foram injuriados na última sexta-feira (dia 20), no Dia da Consciência Negra, com bananas. O feito é do gerente do restaurante Garota da Tijuca, Ascendino Correa Leal, região norte do Rio.

Não precisa lembrar o que significa quando alguém dá bananas para pessoas negras. O ato do gerente é repulsivo e teve o tratamento adequado pelos dois entregadores. Ambos chamaram a polícia, registraram boletim de ocorrência e o elemento foi preso em flagrante.

Ascendino Correa Leal pagou fiança de R$ 800,00, foi solto e - se condenado em processo judicial - pode pegar de um a três anos de prisão. A legislação também prevê o pagamento de multa aos condenados. 

Segundo reportagem do site Pragmatismo Político, os entregadores teriam afirmado que o gerente, ao perceber a confusão na qual se metera, teria tentado minimizar, afirmando que se tratava de uma brincadeira.

Ascendino Leal deve acreditar mesmo ter feito apenas uma brincadeira porque é próprio de um país racista ridicularizar quem considera menor, inferior. O foco é constranger e se esconder atrás do humor.

Em um país racista, essas “brincadeiras” revelam o caráter das pessoas que costumam “brincar” com a cor da pele negra, com o cabelo crespo. Adjetivos pejorativos não faltam no repertório das brincadeiras racistas.

Infelizmente o caso dos entregadores não é isolado. A gaúcha Patrícia Moreira, torcedora do Grêmio, chamou o goleiro Aranha de macaco. O episódio teve repercussão nacional. Patrícia foi processada também por injúria racial e fez um acordo.

No entanto, nem sempre a justiça é juta. O humorista de humor duvidoso Danilo Gentili também ofereceu bananas a um internauta, foi processado e absolvido. O juiz da 10ª Vara Criminal da Justiça de São Paulo, Marcelo Matias Pereira, disse na decisão:

"Seria necessário algo a mais do que uma piada grosseira e infeliz, vale dizer, um intuito de realmente ofender a vítima, desqualificando-a pela cor de sua pele, o que não ocorreu no caso em questão."

O juiz Marcelo Matias Pereira viu em Gentili, apenas uma “brincadeira”, grosseira e infeliz. Infelizmente, a noção equivocada de que chamar um negro de macaco e oferecer-lhe uma banana é brincadeira está arraigada até no Judiciário. Mas justiça que absolveu uma celebridade vai absolver um gerente de restaurante?

As pessoas ofendidas com atos de injúria quando não se calam e vão à Polícia revelam a consciência de raça, necessária para estancar o preconceito e atos de racismo. Enquanto os negros concordarem que isso é uma brincadeira, os brancos racistas sentirão incentivados a fazer o que fazem de melhor: racismo.

Imagem: Reprodução Pragmatismo Político.

2 comentários:

Vanres disse...

Acho até provável que esse senhor de 68 achasse que estava fazendo uma brincadeira aceitável, porque na época em que ele era jovem isso poderia ser encarado assim. E talvez ele nem tivesse intenção de ofender, é que o racismo está tão arraigado nessas pessoas que elas nem o percebem. Não percebem que estão tratando o outro como inferior.

Já o Danilo Gentili, não acredito que tenha sido brincadeira, porque ele é de outra geração, que já vem mais conscientizada e esclarecida. É jovem em uma época que a sociedade mostra com clareza o que é ofensivo e o que não é. Dou desconto para um senhor de quase 70 anos, com pouca instrução, mas não para um cara instruído de 36 anos.

A propósito, li que a esposa desse gerente disse que ele está assustado com a repercussão, teve problemas de pressão, foi afastado do emprego e saiu da cidade. O que só me confirma que ele não tinha noção da gravidade do que fazia. Não que isso faça a ofensa menos grave.

Reinaldo César Zanardi disse...

Acredito também na diferença entre o gerente do restaurante e o suposto humorista. No entanto, ambos caracterizam injúria racial. Se a intenção é um atenuante acredito que o que muda é a pena, em caso de condenação. Responsabilidade ambos têm.