domingo, 31 de janeiro de 2016

Carta ao educador


“Virgílio Tomasetti Júnior, 64, é educador em Londrina há 40 anos.” Na edição da Folha de Londrina de hoje (dia 31/01, primeiro caderno, p.7), ele paga (milhares de reais) um informe publicitário para atacar o governo federal e o PT. Em resumo, ele critica projetos federais que reconhecem direitos de gênero. Dedico esta carta ao educador. Dois pontos merecem reflexão.

Primeiro. 
“Querem que, independentemente da vontade dos pais, um menino chamado Pedro, possa ser chamado de Pietra, e tenha direito a se dirigir ao banheiro das meninas.” “(...) querem provocar a ruptura biológica homem/mulher, menino/menina, pai/mãe. Por quê? Porque a família tradicional, burguesa e, pior, cristã, internaliza a ideia de propriedade privada.”

Caro educador, a dualidade biológica homem/mulher, menino/menina é defendida por quem não conhece e/ou não respeita as variações de gêneros que não podem ser cristalizadas em um pênis ou em uma vagina. O gênero transcende a questão biológica, visto que os papeis homem/mulher, menino/menina, pai/mãe são construídos social e historicamente.

Claro que educar nesta perspectiva obriga o educador a romper com o padrão estabelecido pelos “burgueses” e sua hegemonia, e principalmente, com os próprios preconceitos. A sociedade evolui e o educador tem de evoluir junto, não podendo ficar preso aos consensos de 40 anos atrás.

A família tradicional cristã não entende, ou não quer entender, que gays, travestis e transgêneros nascem em seu interior. Ao negar isso, esta família tradicional cristã nega os seus, que não nasceram com o padrão "burguês" e sua hegemonia. O sexo e a sexualidade são naturais, mas o papel a ser desempenhado é, repito, construído social e historicamente.

Um exemplo banal vivido domingueiramente (ou todos os dias) pelas famílias tradicionais cristãs. Depois do almoço, o homem (ser biológico com pênis) vai para a frente da televisão e a mulher (ser biológico com vagina) vai lavar a louça. Quebrar este padrão social também é uma ruptura biológica?

Ignorar a questão de gênero é marginalizar aquele que não pertence à dualidade menino/menina e forçá-lo(a) ao sofrimento de não ver seus direitos reconhecidos. A sociedade cria seus párias e depois reclama. Uma travesti tem direito de frequentar a sala de aula e de ser chamada pelo nome social. Ali, ela exerce seu direito ao acesso à educação. A questão de gênero e de transgênero é muito complexa e não cabe na caixinha biológica de homem/mulher, menino/menina.

Segundo.
“O Paraguai tirou o padre maluco, pai de muitos filhos, do poder, a Argentina já acordou: a dona Cristina pode partir. A Venezuela tem um materialista – histórico que fala com Chaves através de passarinhos,não é inacreditável? O Brasil tem inocentes úteis ao governo: capitalistas usados por Lula até o final”.

O padre maluco não foi tirado do poder pelo povo do Paraguai. Ele foi deposto, em 2012, pelo Congresso daquele país em um processo questionável, a exemplo do que aconteceu com Manuel Zelaya, em Honduras, em 2009. Basta um governo progressista acenar aos pobres, que a elite de sempre se levanta para derrubá-lo.

A tentativa de impeachment de Dilma, patrocinada pela oposição brasileira, aliada a setores da imprensa e do mercado, corrobora esta linha de raciocínio. Impeachment de presidente eleito pelo voto, sem envolvimento do presidente em atos ilícitos é golpe. E quem apóia é golpista. Simples assim.

A saída de Cristina Kirchner do poder é motivo para comemoração, mas nenhuma palavra sobre o governo de Mauricio Macri. Em menos de dois meses, ele é alvo de manifestações por adotar medidas autoritárias, como nomeação de juízes para a Suprema Corte por decreto; extinguir leis, também por decretos, que visam a democratização da comunicação, com medidas contra o monopólio; retirar subsídios da energia elétrica que vai aumentar em até 300% a conta de luz. A austeridade defendida pelos “burgueses” joga a conta para os mais pobres. Afinal, quem governa para ricos é austero e quem governa para pobre é populista.

Se não soubesse que o senhor é educador por 40 anos, diria que este é o caso de um idoso de 64 anos mal informado, mas isso seria subestimar o seu conhecimento. O senhor defende um ponto de vista de quem pertence a uma classe social, que quer a manutenção dos privilégios que esta classe sempre gozou em governos conservadores. Por isso, seu anúncio publicitário pode ser definido como um brinde ao discurso de ódio e de classe.

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