terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O menino, o jovem e a praia


Jadson e Aylan estavam separados por duas décadas de idade, não se conheceram, não eram da mesma nacionalidade, não falavam a mesma língua, não tinham os mesmos costumes nem a mesma cultura. E ainda assim tiveram algo em comum. A morte que deixou seus corpos estendidos na praia.

Aylan é o menino sírio Aylan Kurdi, de 3 anos, morto em um naufrágio em setembro do ano passado quando fugia, de seu país, com a família. A foto do corpinho em uma praia da Turquia varreu o mundo e comoveu milhões; levantou discussões apaixonadas sobre política e invasões, dita duras e dita democracias.

Jadson é o alagoano Jadson da Silva Pereira, de 23 anos, que vendia a própria sobrevivência – como ambulante - em praias de Florianópolis. A foto do seu corpo estendido na areia não correu o mundo nem mobilizou milhões. As facadas que Jadson levou desesperaram quem estava por perto. Enquanto o corpo aguardava o IML, os comovidos voltaram ao lazer.

Muitos dirão que os contextos são diferentes e, por isso, a comparação é descabida. Alguns dirão que Aylan era inocente, uma criança refugiada. Outros levantarão suspeitas sobre Jadson, afinal as facadas são indícios de que ele estava metido em coisa que não presta. Os inocentes não são inocentes. São culpados até que se prove o contrário.

Aylan e Jadson morreram na esperança de uma vida melhor. O menino deixou seu país, a Síria, e tornou-se refugiado, esse contingente expatriado que causa ódio e segregação. Jadson - o nordestino - deixou seu estado e veio para o Sul Maravilha(?) "sujar as praias", "tomar empregos da gente daqui". O discurso de ódio também expatria e segrega. 

O menino sírio, o jovem brasileiro e a praia. Circunstâncias diferentes, final semelhante. Na horizontal, a morte deixa todos iguais. Morte é morte, mas teimamos em valorizar umas e desvalorizar outras. As sociedades escolhem e promovem seus mortos. Uns ao estrelato. Outros à invisibilidade de sempre. E isso não é pouco; diz muito sobre a nossa humanidade.

Foto: Reprodução DCM.

2 comentários:

WALTER BALTHAZAR disse...

A geografia corporal e a melanina, fazem total diferença...

WALTER BALTHAZAR disse...

Q geografia corporal e a quantidade de melanina, fazem total diferença...