quarta-feira, 30 de março de 2016

Questionável, lamentável e deplorável


A médica pediatra Maria Dolores Bressan negou continuar atendendo o filho de Ariane Leitão – por meio de convênio - por ser a mãe suplente de vereadora pelo PT, em Porto Alegre (RS). O caso veio à tona, recentemente, quando a médica comunicou a mãe de que não atenderia mais seu filho. A conversa foi pelo WhatsApp.

__Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhadores (ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho.

Ariane Leitão denunciou a médica ao Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul, que abriu sindicância para apurar os fatos. Ela foi secretária de Políticas para as Mulheres do Rio Grande do Sul, durante a gestão do prefeito Tarso Genro.

Quer exemplo de ódio político caracterizado por uma médica que jurou atender? Mas esse viés não é o foco deste texto. Que o ódio seja digerido por quem o cultiva, como a médica Maria Dolores Bressan. O enfoque aqui são as declarações do presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes, em entrevista ao Diário Gaúcho.

O presidente do sindicato disse – corporativamente – que Maria Dolores Bressan tem de se orgulhar de ter negado o atendimento. Ele invocou o Código de Ética da categoria para respaldar a negativa ao atendimento.  Para ele, a decisão de Maria Dolores “é absolutamente ética. O código de ética médico tem um artigo que estabelece como deve se dar a relação entre médico e paciente. Tem coisas muito claras.” Em outra declaração, o médico diz que a pediatra – por sua postura – tem a admiração da entidade.

Pode ser ética para os médicos, mas é imoral, podendo, inclusive afrontar o dispositivo do artigo V da Constituição Federal, que afirma: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

Se um médico pode negar atendimento a alguém com posicionamento ideológico diferente do seu, quem garante que ele não venha a negar atendimento a pessoas com religião diferente da sua ou negar atendimento por causa da raça ou ainda por não concordar com a orientação sexual do paciente?  

Essas situações são extremas e discriminação por raça é crime. O racista sabe disso e se negar o atendimento vai jurar por Deus que não se trata disso. Em que pesem a homofobia e a religiosofobia não serem crime, a negação de atendimento nesses casos pode ser tipificada pelo Código Penal. Os preconceituosos também sabem disso.

A fala do presidente do sindicato Paulo de Argollo Mendes presta um grande desserviço à politização do Brasil, por causa da beligerância ideológica existente atualmente, principalmente, contra nomes e partidos da esquerda. No entanto, isso não causa estranheza. 

O programa federal Mais Médicos, lançado pela presidente Dilma Rousseff, em 2013, foi atacado por vários setores da sociedade brasileira, em especial pelas entidades corporativas dos médicos. Tradicionalmente, são as mesmas entidades corporativas que atacam o Sistema Único de Saúde (SUS).

Negar atendimento médico a uma criança porque os pais são de um partido político do qual o médico odeia pode ser ético no código – questionável – da categoria. Endossá-la corporativamente é lamentável! E dizer que a atitude da médica que negou atendimento é motivo de admiração é deplorável. 

terça-feira, 29 de março de 2016

Ao mar


Direitos em risco


Os direitos do trabalhador brasileiro estão sob ataque pesado. Hoje (dia 29), a Câmara dos Deputados aprovou a terceirização para todos os empregos, incluindo a atividade-fim. Por exemplo, uma universidade poderá terceirizar até a função de professor.

O projeto de lei (4.330/04) é de autoria do então deputado Sandro Mabel, de Goiás, e teve apoio de deputados federais do PSDB, PMDB, DEM, PSD e Solidariedade. Foram contrários à proposta parlamentares do PT, PCdoB, PSB, PV, PDT, Pros e Psol.

A terceirização para todo tipo de emprego significa ainda mais a precarização das condições de trabalho, com arrocho salarial para o trabalhador. Imagine uma atividade-fim - o professor - ser subcontratado por um empresa para prestar serviços em uma universidade. O salário será achatado e as condições de trabalho ainda mais precarizadas.

A aprovação do projeto na Câmara, ele ainda pode ser alterado no Senado, ocorre em meio ao processo de impeachment da presidente Dilma. Entre os apoiadores do projeto na Câmara estão exatamente os nomes acusados de corrupção e que vão julgar o processo contra a presidente.

Hoje (dia 29), o PMDB - do vice-presidente Michel Temer - aprovou o desembarque do governo Dilma. Não por acaso, Temer flerta com a oposição em um eventual governo seu. No último domingo, o jornal Estadão publicou matéria que revela que um governo pós-Dilma cortaria investimentos em programas sociais.

Investimentos em programas como "Minha Casa, Minha Vida", "Fies", "Prouni" e até o SUS - encarados como gastos públicos - seriam reduzidos, o que inevitavelmente levará a cortes, reduzindo o número de beneficiários, ou seja, quem mais precisa pagará a conta.

Também não é por acaso que um dos maiores patrocinadores do golpe contra Dilma - sim! impeachment sem crime de responsabilidade é golpe - Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), defende o fim da CLT, a Consolidação das Leis Trabalhistas.

Na prática, a flexibilização das leis - como preferem os defensores do fim da CLT - é reduzir e até extinguir direitos como férias, 1/3 de férias, 13º salário, FGTS, aumento da jornada de trabalho, entre outros benefícios assegurados ao trabalhador brasileiro.

O impeachment da presidente Dilma baseia-se na acusação de cometer as tais pedaladas fiscais, ou seja, pegar dinheiro público para bancar benefícios sociais como o Bolsa Família e depois devolver esse dinheiro aos bancos estatais (Banco do Brasil e Caixa). 

Esse argumento não se sustenta juridicamente e a imprensa teima em construir uma narrativa de que ela será julgada pelas investigações da Lava Jato, que não encontrou qualquer crime contra ela. Um terço dos deputados que vão julgar o pedido de impeachment responde a ações no STF e em outras instâncias. Além disso, mais de 200 deputados aparecem nas investigações da Lava Jato.

Por isso, fala-se em "acordão" dos deputados para oferecer a cabeça de Dilma à população e, em um eventual governo Temer, esvaziar a Lava Jato, para livrar os congressistas das investigações. Além disso, estaria em operação um acordo com Eduardo Cunha, que inclui a sua renúncia da presidência da Câmara, para manter o cargo de deputado, evitando a cassação. 

Esses episódios mostram que o combate à corrupção - a narrativa centra fogo em Dilma e no PT - é uma cortina de fumaça para uma reforma trabalhista - que se ocorrer - deixará o trabalhador nu, em benefício do capital que explora o trabalhador e precariza as condições de trabalho. 

É urgente que o trabalhador vote em nomes que representem seus interesses. O Congresso Nacional é formado essencialmente por representantes do empresariado e dos ruralistas, que também receberam votos de trabalhadores. E você que pensava que a luta era só contra a corrupção. 

terça-feira, 22 de março de 2016

Inquietudes (305) do Rei

Em meus relacionamentos pessoais, sociais e profissionais sempre gostei da vírgula, das reticências, dos parêntesis, dos tracinhos, mas chega uma hora em que o mais indicado - e saudável - é o ponto final.

domingo, 20 de março de 2016

Quem é o gigante?



Ontem, dia 19, participei da festa de formatura de Jornalismo da Turma 2015 da Unopar - a J12. Como um dos professores homenageados e coordenador do curso no período em que eles estiveram na universidade (e eu também; fui desligado no início de fevereiro) fui convidado a falar durante a cerimônia da festa. Minhas palavras aos mais novos jornalistas de Londrina.

Boa noite pais, mães, parentes e amigos.
Boa noite jornalistas.


Muitos de vocês, quando ficaram sabendo da aprovação no TCC, usaram palavras para descrever aquele momento: vitória, conquista, realização.

Outra palavra também foi bastante usada: sonho.

Sim, vocês realizaram um sonho. Parabéns!

Vocês têm um diploma de curso superior. E o que vocês farão com isso?

Na missa da formatura, o padre Vandemir, do Santuário de Aparecida aqui em Londrina, disse que a tarefa do jornalismo é muito nobre.

E que esta tarefa é combater os gigantes. E eu pergunto: qual gigante?

Esse gigante é o dinheiro. É o poder econômico.

Esse é o poder que compra políticos; que sonega impostos; que corrompe o funcionalismo público, a justiça; que especula na Bolsa de Valores, no mercado imobiliário, nos bens de consumo em geral.

O poder econômico - quando concentrado - gera desigualdade e, portanto, miséria.

O gigante – o poder econômico – não quer distribuir renda, não quer justiça social e provoca o caos quando seus interesses são contrariados.

A atual cena política e econômica brasileira não é mera coincidência. 


Mas voltemos aos sonhos.

Usem esta conquista para denunciar as injustiças sociais.

Usem esta realização para se indignar contra todo tipo de corrupção.

Usem esta vitória para ficar ao lado dos oprimidos e não dos opressores.

Façam jornalismo e não propaganda política.

Como jornalistas, lutem pelo que é certo e briguem pelo interesse coletivo.

Não deixem que o sonho se transforme em mera sobrevivência financeira no mercado de trabalho.

Assim, o sonho terá valido a pena.

Termino esta fala, citando uma estrofe da música “Solo Le Pido A Dios”, composta pelo argentino Leon Gieco, que - na voz de Mercedes Sosa - me parece uma oração.

Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacia y sola sin haber hecho lo suficiente

Só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a ressequida morte não me encontre
Vazia e sozinha sem ter feito o suficiente


Obrigado e uma boa noite!

Crédito da Charge. Mike Luckovich. Fonte: Comm 345 (
http://inequality2.comm.ccsu.edu/index.php/2015/09/28/economic-justice-for-all-by-mel/)

sábado, 19 de março de 2016

Aí, o palavrão

Aí... meu conhecido chega para mim en-fu-re-ci-do porque ouviu os grampos da PF que captou um Lula desbocado. Ele reprovou o ex-presidente.

__Que horror! Um ex-presidente falando nesse nível.

Concordei.

__Porra! Eu também ouvi.
__Isso revela um nível muito baixo.

Tive de concordar.

__Lula deveria tomar mais cuidado com o que diz, caralho.
__O pior é ele mandar a justiça enfiar o processo.
__Aí foi feio. Ele fez igual ao público da abertura da Copa que mandou a Dilma tomar no cu. Lula não deveria falar essas coisas não. Que merda!

Meu conhecido percebe algo.

__Esperaí, você está sendo cínico e me tirando!
__ Puta que pariu! Só agora você percebeu?

Há!

quarta-feira, 16 de março de 2016

Inquietudes (304) do Rei

Quando um agente da lei, um juiz por exemplo, comete um crime para prender um criminoso e o prende, o número de criminoso solto continua igual. Crime é crime. O que muda é a pena, apenas.

Quero meu país de volta!


Gloryah, a amiga da Creide, foi para as ruas no último domingo com um cartaz que dizia "Quero meu país de volta!".

Ela rodou avenidas, revezando palavras de ordem contra os corruptos, os ladrões do dinheiro do povo, os comunistas que querem acabar com o Brasil.


Na volta da passeata, Gloryah encontrou a Creide na porta do prédio e, indignada, apontou o dedo para a amiga que se recusara a participar da folia na avenida.


__Quero meu país de volta! disse Gloryah provocando a Creide.
__Qual país? perguntou Creide com cara de tonta.
__Quero meu país de volta! repetiu.
__Qual país? ...silêncio... O que o negro pobre não entrava na universidade? devolveu Creide a provocação.
__Quero meu país de volta! elevou Gloryah o tom da voz.
__Qual país? O que empregada doméstica não tinha direito trabalhista? baixou Creide o tom da voz.
__Quero meu pais de volta! elevou Gloryah mais um pouco o tom da voz.
__Qual país? O que não investigava corrupção e engavetava todas as acusações? baixou Creide mais um pouco o tom de voz.
__Quero meu pais de volta! gritou Gloryah.
__Qual país você quer de volta, criatura? quase sussurrou Creide.
__O meu país. bateu Gloryah no peito.

Silêncio...

__Você não entende mesmo. Você está cega, Creide. A sua paixão partidária não deixa você enxergar. O pior cego é aquele que não quer ver. Que decepção!

Silêncio...
Ambas entram no edifício. Gloryah chama o elevador. cada uma aperta seu andar.


__Você quer carona amanhã para o trabalho? perguntou Creide à amiga.
__Pode ser. No horário de sempre. respondeu Gloryah.
__Então até amanhã.

 
Creide desce do elevador e Gloryah vai até seu andar, o de número 13.


Imagem: Reprodução www.wallpapersmegapixel.blogspot.com

quinta-feira, 10 de março de 2016

Inquietudes (302) do Rei

Então quer dizer que se houver cadáver no domingo a culpa será só do Lula? Qual a (ir)responsabilidade de um promotor que ajuíza uma ação - anunciada semanas antes à Veja - e pede a prisão do ex-presidente quatro dias antes do 13 de março, insuflando ainda mais o ódio e a rivalidade? Sim! Se houver cadáveres nas ruas, os corpos serão divididos com os promotores e juízes das camisas pretas.

Inquietudes (301) do Rei

A média da classe média está abaixo da média, mas se acha acima!

Encontro marcado com o Brasil

No próximo domingo, dia 13 de março, eu tenho um encontro marcado com o Brasil.
Vou para as ruas lutar por um país melhor, livre da corrupção.
Fora tudo isso que está aí!

Vou protestar contra a corrupção, por mais serviços públicos, mas sonego impostos.
Vou protestar contra a corrupção, por mais serviços públicos, mas sou contra o programa Mais Médicos.
Vou protestar contra a corrupção, por mais escola para as nossas crianças, mas sou contra as cotas públicas, o Fies e o Prouni.

Vou protestar porque todos os corruptos têm de ser presos, mas bato panela apenas contra Dilma e o PT.
Vou protestar contra Lula que recebeu dinheiro das empreiteiras investigadas na Lava Jato, mas não protesto contra FHC que também recebeu das mesmas empresas.

Vou protestar por uma justiça forte, mas não protesto quando ela gera insegurança jurídica:  condenação sem provas; prisão preventiva para forçar delações; vazamento de informações em processos sigilosos e condução coercitiva ilegal.
Vou protestar pela informação livre, pela liberdade de expressão ampla e irrestrita, mas não protesto quando a mídia tradicional potencializa acusações contra o governo e esconde o mesmo tipo de informação de políticos da oposição, em um noticiário desequilibrado.

Vou protestar contra o Partido dos Trabalhadores, mas não protesto contra o roubo da merenda escolar no governo tucano de Alckmin, em São Paulo.
Vou protestar contra Dilma, mas não protesto contra a corrupção na Receita Estadual que envolve o tucano Richa, no Paraná.

Vou protestar contra Dilma que causou a maior crise econômica da história deste país, mas apoio Eduardo Cunha, presidente da Câmara, para aprovar suas pautas-bombas.
Vou protestar contra o governo da presidenta Dilma porque eu sou apartidário, mas voto no Moro para presidente, em 2018.

Vou protestar por um país melhor porque cada um tem de fazer a sua parte!

domingo, 6 de março de 2016

Inquietudes (300) do Rei

Quem ajuda a incendiar o país, não pode reclamar do fogo.

Notas sobre os últimos dias

Muito dinheiro
Tem gente ganhando muito dinheiro com o mercado de delações que foram feitas, mas não foram feitas. Pode-se chamar de delação porcina, a que foi sem nunca ter sido; e com o vazamento seletivo de investigações sigilosas. O caos na política enche o bolso dos espertos, enquanto os mortais - aqueles que se acham bem-informados - se pegam no mundo virtual (e agora no real). O rentismo agradece.

Panelas seletivas
A delação porcina de Delcídio, a que foi sem nunca ter sido, e seu vazamento estratégico, na quinta-feira (dia 3), explica muita coisa que ocorreu na sexta-feira (dia 4). Pena que o empenho da PF, do MPF e da justiça em combater a corrupção petista não seja o mesmo em combater a corrupção tucana. A seletividade das instituições, que funcionam com dinheiro público, gera panelas revoltadamente seletivas.

Está ruim, pode piorar
A direita comemorou a "prisão" de Lula e a Lava Jato pode ajudar a eleger, em 2018, Bolsonaro, como as Mãos Limpas elegeu Berlusconi, na Itália. E a tontaiada achava que a operação era para acabar com a corrupção no governo do PT. Até Aécio Neves, citado por três delatores da Lava Jato (e que não foi incomodado por Moro e cia), comemora a ação contra Lula. A seletividade judicial presta desserviço à democracia. Daqui a muitos anos estaremos debatendo a mesmo coisa.

Atropelamento judicial
Algumas vezes, eu disse que a Lava Jato adotava expedientes que afrontavam o estado democrático de direito. Conhecidos com sangue nos olhos me acusaram de defender corrupto. Agora, o ministro do STF Marco Aurélio diz que Moro "atropelou as regras". Quando a sociedade dá aval para juízes serem justiceiros, qualquer um pode ser a vítima, inclusive você que teve orgasmo com a "prisão" do Lula.

E o cidadão comum?
Lula é bandido. Lula é ladrão. Moro, onde estão as provas? Por que Lula não está preso? Condução coercitiva, prisão temporária convertida em preventiva para forçar delações; depoimentos direcionados; depoimentos não gravados; manipulação de provas; prisões direcionadas; vazamentos seletivos; parceria midiático-judicial. O combate à corrupção não pode ser seletivo e - muito menos - passar por cima do estado democrático de direito. Se permitirmos a supressão de garantias e liberdades individuais, duramente conquistadas, o que pode acontecer com o cidadão comum, o anônimo que nem tem acesso à advogado?