quinta-feira, 9 de junho de 2016

“Gays direitos”

Há algum problema em um homossexual ser de direita? Decisivamente, não! O gay – como qualquer pessoa – pode ter posições conservadoras: ser contra o aborto e contra a descriminalização das drogas; ser contrário às políticas públicas para pobres; ser favorável à redução da maioridade penal, ao porte de arma, à pena de morte; ser favorável ao estado mínimo e à livre iniciativa do mercado. 

A sexualidade não determina a posição política e ideológica de ninguém. No entanto, um homossexual que elogia e até declara voto no deputado federal Jair Bolsonaro merece reflexão. E quando isso é feito em movimento, mais reflexiva ainda tem de ser a sociedade sobre o fenômeno.

O deputado não é conhecido apenas por suas convicções conservadoras, mas também por suas ideias indefensáveis como a tortura, o regime militar e a supressão de direitos humanos. Bolsonaro já falou, em mais de uma ocasião, que prefere um filho morto a um filho gay. Neste sentido, o que leva um grupo de homossexuais a cultuar essa figura? 

Reportagem da BBC mostra que há uma parte do movimento gay que apóia Jair Bolsonaro, inclusive com comunidades em redes sociais, como a do Facebook “Gay de direita, gay direito”. Aliás, o que é um gay direito? Seria o equivalente aos “direitos humanos para humanos direitos”? Não é esse tipo que defende a justiça com as próprias mãos, amarrando acusado de assalto em poste?  Não é o tal “cidadão de bem” que reza e ora nas igrejas e prega a violência para supostamente combater a violência? 

Jair Bolsonaro é favorável ao não reconhecimento de direitos humanos e ataca frontalmente o casamento gay e a adoção por casais homossexuais. Como conciliar a agenda do conservadorismo com a agenda do movimento gay? Nenhum movimento social é homogêneo nem suas lideranças defendem sempre as mesmas ideias. No entanto, quando parte do movimento gay associa-se a nomes como Jair Bolsonaro, a própria causa acaba afetada e seus próprios membros podem ser atingidos. Isso não será um problema desde que esse movimento não defenda as causas tradicionais do movimento GLBT.

Segundo a reportagem da BBC, “a maioria dos entrevistados é contra a lei que criminaliza a homofobia (...) Para eles, criar leis específicas seria uma nova forma de segregação.” Esse raciocínio revela a mesma falta de consciência (ou distorção) da população em geral. Se um gay foi espancado e morto por causa da sua sexualidade, a lei geral não é suficiente para dar conta. Não se trata de agressão física ou tentativa de assassinato ou assassinato, previstos no Código Penal. A motivação – a homossexualidade da vítima – é um agravante e deve ser prevista em lei para que seja tipificado como tal, a exemplo do crime de racismo e do crime contra a mulher. E isso não é segregação. É proteção à vitima.

Ainda conforme a reportagem, “(...) parte dos que se identificam com posicionamentos mais conservadores têm restrições à adoção de crianças por casais homossexuais. Alguns até consideram que uma família formada por dois homens ou duas mulheres têm mais chances de afetar sua orientação sexual.” Aqui cabe um questionamento pertinente ou não. Por que esses homossexuais conservadores não foram influenciados pelos pais heterossexuais e se tornaram gays e não heteros? 

Bolsonaro, como qualquer político em permanente em estado eleitoral, não vai negar o apoio de “gays direitos” (seja lá o que isso signifique). Aliás, isso pega bem para a sua imagem política. E poderá dizer que até os gays o apóiam. Não se esqueçam de que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) apoiou um grupo conservador em um acampamento anti-Dilma em frente à sede da entidade, na avenida Paulista. Aceitado o impeachment de Dilma, os membros do acampamento foram expulsos. Usados e jogados fora.

O problema não é conservador nem de direita. O problema é não saber o espaço que se ocupa para que tipo de agenda se dá visibilidade. Um gay - por ser contra o aborto, a descriminalização das drogas; favorável à redução da maioridade penal, ao porte de arma e à pena de morte - não precisa fazer palco para políticos que atacam os direitos humanos, homenageando torturadores do regime militar. 

É o mesmo que um integrante do Movimento Sem Terra ser favorável ao latifúndio improdutivo; um trabalhador ser favorável ao fim da CLT; um negro afirmar que não existe racismo; uma feminista negar o machismo. Como se vê, a desinformação e o preconceito permeiam até os deveriam combatê-los.

Crédito da imagem: Latuff (2012). Charge elaborada quando da discussão do projeto do pastor Marco Feliciano, que foi conhecido como o projeto da cura gay.

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