domingo, 31 de julho de 2016

A pedagogia da ilegitimidade


Em períodos eleitorais, sempre digo que um projeto conservador exclui os mais pobres da pauta e os programas sociais correm riscos sérios de extinção, assim como os trabalhadores pagam a maior parte da conta dos ajustes fiscais.

Geralmente, meus interlocutores não acreditam nisso, negam essa prática e apostam que os programas serão mantidos, independentemente, de quem assume o governo. O eleitor não difere políticas de estado e políticas de governo. 

O Sistema Único de Saúde é uma política de estado, consolidada por ter atuação de agentes pluripartidários e, mesmo assim, sofre ataque de todos os lados: medicina privada, congresso eleito com dinheiro de planos de saúde, gestores incompetentes e mal intencionados.

A obrigatoriedade de investimento mínimo do orçamento em saúde e em educação (o percentual varia do município para o estado e União) é constitucional e Temer, o ilegítimo, ataca esse pilar que foi construído com vários segmentos, incluindo usuários, trabalhadores, prestadores de serviço e gestores.

Imagine, então, o que acontece com um projeto de um governo que segue uma diretriz política específica, com uma orientação ideológica determinada. É marca do governo que assume destruir os símbolos anteriores. Isso revela a pequenez da mentalidade política partidária brasileira.

E é exatamente o que se vê em Michel Temer, o ilegítimo, na presidência tomada de assalto, por quem não teve votos nas últimas eleições. Ilegítimo porque Temer, ao trair Dilma; e o PMDB, o PT (aliança celebrada em 2010), o fazem para assumir o Palácio do Planalto e implantar um plano que não disputou as urnas (Ponte para o Futuro).

Temer, o ilegítimo, já implantou e estuda implantar medidas como: 
- Fim do programa Ciência sem Fronteiras.
- Cobrança de mensalidade em universidade públicas, com apoio do Ministério da Educação.
- Limites de investimento em saúde e educação, acabando com a obrigatoriedade constitucional de gasto mínimo nos dois setores.
- Redução do Fies e do Prouni.
- Cobrança de mensalidade na saúde pública, com um plano popular.
- Privatização da Petrobrás.
- Fim do aumento real para o salário mínimo.
- Revisão da CLT para flexibilização das leis trabalhistas.

E agora, conforme o jornalista Fernando Brito, Temer – o ilegítimo - pede ao Congresso Nacional para retirar do Orçamento da União os itens de transferência de renda, ou seja, os recursos destinados aos programas de combate à miséria e à pobreza. Segundo Brito:

__”Michel Temer (PMDB) pediu para retirar dos objetivos principais a atuação da administração para assegurar a “distribuição de renda” e também o “fortalecimento dos programas sociais” e a execução de “políticas sociais redistributivas”.

E você continua achando que um governo não acaba com os programas implantados pelo adversário antecessor. Se democraticamente eleito, um governo, geralmente, enterra as iniciativas do anterior, imagine o que faz alguém que chega à presidência, sem voto.

A ruptura institucional promovida por iniciativa de Eduardo Cunha, com apoio do PMDB de Temer, do mercado, da mídia tradicional e de parte do Judiciário vai aprofundar ainda mais a crise econômica afetando, principalmente, o segmento que mais se beneficiou com as políticas de Lula e Dilma. Nessa esteira rolará a classe média assalariada que bateu panela seletivamente.

No entanto, o ódio ao projeto de inclusão social vai impedir que muita gente reconheça os avanços dos últimos 12 anos e o retrocesso dos últimos três meses. Não se espante se você ouvir por aí que Temer faz o que faz por causa e culpa de Dilma. Afinal, o ódio cega e entorpece o raciocínio.

Espero, por ingenuidade ou esperança, que o desmonte do estado para a maioria da população, promovido por Temer - o ilegítimo, seja pedagógico e mostre as diferenças entre um projeto progressista e outro conservador. E pare – oh tonto – de afirmar que projeto político é tudo igual.

Dia de turista


Inquietudes (327) do Rei

Na escola, o problema não é a doutrinação, mas a doutrinação que o outro pode fazer com a qual você não concorda. A escola é ideológica e tem partido. Qual você defende?

A Matriz da minha infância


quarta-feira, 27 de julho de 2016

As ilegitimidades de um ilegítimo

Charge: Nani.

- Fim do programa Ciência sem Fronteiras.
- Cobrança de mensalidade em universidade públicas, com apoio do Ministério da Educação.
- Limites de investimento em saúde e educação, acabando com a obrigatoriedade constitucional de gasto mínimo nos dois setores.
- Cobrança de mensalidade na saúde pública, com um plano popular.
- Privatização da Petrobrás.
- Fim do aumento real para o salário mínimo.
- Revisão da CLT para flexibilização das leis trabalhistas.

Essas são algumas medidas implantadas, em implantação ou em estudo pelo governo do presidente ilegítimo, Michel Temer.

Para romper com o PT, Temer traiu Dilma e o PMDB elaborou o “Ponte para o Futuro” que serviu para atrair a oposição e agradar o mercado.


Esse plano de governo, portanto, não foi objeto de debate eleitoral nem disputou votos e sua implantação só se concretiza com a tomada do poder.

Assim, Temer - vice legítimo - torna-se presidente ao usurpar a cadeira da Presidência. Entendeu o porquê de Temer ser um presidente ilegítimo?

domingo, 24 de julho de 2016

Aí, a expectativa

Aí... um colega vira para mim - com ar disfarçadamente agressivo - e larga com força.

__Você me decepciona ao ter essa orientação política!

Balancei a cabeça. Mirei-o por alguns segundos. Eu tive de devolver.

__Só se decepciona com os outros, quem tem expectativa demais.

Há!

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Nenhum direito a mais

Charge: Cícero.

“Nenhum direito a menos.” Este enunciado virou bordão na boca da presidenta Dilma Rousseff, em relação aos direitos do trabalhador e a preservação das conquistas da Consolidação das Leis trabalhistas (CLT). Ele também foi usado em manifestações de professores Brasil afora, na disputa contra governadores como no Paraná e em São Paulo, não coincidentemente, nomes do PSDB. 

Com o pretexto de combater a corrupção de todos (pausa para gargalhar: __hahahahahaha), a operação Lava Jato, com setores do Supremo tribunal federal (leia-se ministro Gilmar Mendes) e da imprensa tradicional, foi aprovado o afastamento da presidenta Dilma Rousseff que deve ser julgada - definitivamente - pelo Senado Federal nas próximas semanas. 

A pretexto – sim – porque Michel Temer – o ilegítimo – que traiu Dilma, nomeou ministros citados na mesma operação e os movimentos como o Vem pra Rua, desapareceram – quanta  ironia! – das ruas. Escondidas estão também as lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL). E você deve ter imaginado que era Brasil Livre da corrupção, mas era livre apenas do PT. A corrupção do PMDB que cerca Temer – o ilegítimo – parece ser bem vista pelo movimento.

Para romper com o PT, o PMDB elaborou o documento “Ponte para o Futuro” que serviu para atrair a oposição (PSDB e DEM são parceiros do governo ilegítimo) e agradar o mercado. A ilegitimidade de Temer está exatamente no fato deste documento não ter disputado as urnas, ou seja, não foi escolhido pelo eleitor. Está sendo implantado com a derrubada de uma presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos. Pode-se chamar isso de ruptura institucional ou golpe mesmo.

O presidente ilegítimo deu mostras no documento do seu partido que pretende retirar direitos trabalhistas consolidados há décadas e, diariamente, tem dado provas de que vai avançar sobre o trabalhador. No texto “Um atalho para o passado”, escrevi sobre o tema. “Ao retirar conquistas como o aumento real do salário mínimo, dos benefícios da Previdência e a obrigatoriedade do investimento em educação e saúde, "Uma Ponte para o Futuro" vira um atalho para o passado.”

No entanto, as medidas amargas para o trabalhador e doces para o empresariado tipo Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) (que apoia o impeachment de Dilma) serão conhecidas em um eventual afastamento definitivo de Dilma.  Entre as intenções do ilegítimo estão:
- estabelecer a idade mínima para aposentadoria de 65 anos, tanto para homens quanto para mulheres; 
- flexibilizar jornadas de trabalho e salários, sobrepondo os acordos coletivos sobre as leis trabalhistas.

Com o acordo coletivo acima das leis, o trabalhador perde um importante foro que é a Justiça do Trabalho. Na prática, sindicatos fracos não terão como pressionar o patronato para conseguir avançar em conquistas e a categoria ficará refém do outro lado da mesa de negociações.

Temer, o ilegítimo, já anunciou a revisão das aposentadorias por invalidez e regras do auxílio-doença. “Objetivo é cancelar 30% dos benefícios em vigor. Medida também vai interromper 150 mil aposentadorias por invalidez.” A informação é do jornal Brasil de Fato e mostra que a economia de Temer é feita no bolso do trabalhador.

Se por um lado, a corrupção drena recursos públicos, por outro há um fator que drena ainda mais: a sonegação fiscal. A dívida dos 500 maiores devedores do país, em 2015, era de quase R$ 400 bilhões. Hoje a dívida de pessoas físicas e jurídicas com a União ultrapassa R$ 1 trilhão.  Na semana passada, o Estadão divulgou que um diretor da Fiesp, aquela mesma do pato, deve sozinho quase R$ 7 bilhões. Trata-se do empresário Laodse de Abreu Duarte

O poder público é ágil para cobrar e punir pequenos devedores, mas quando se trata dos grandes, a máquina emperra. Por exemplo, o recém-eleito presidente da Câmara, o demo Rodrigo Maia, já encerrou a CPI do Carf que investigava um esquema entre grandes empresas e agentes públicos. Na prática, conforme o deputado Ivan Valente, no site Viomundo, a decisão de Maia blinda empresas como Bradesco, Safra, Santander, Gerdau e RBS.

Ao mesmo tempo em que Temer, o ilegítimo, distribui aumentos para categorias do funcionalismo federal, incluindo ministros do STF e procuradores da República - que vão impactar em 58 bilhões até 2019, corta benefícios da Previdência e aposentadorias por invalidez de muitos que ganham um salário mínimo. 

O ajuste fiscal é feito nas contas de quem ganha menos já que funcionários públicos que ganhavam o teto de R$ 33.763 vão receber R$ 39.293. Isso sem contar que os aumentos foram aprovados logo após o afastamento provisório de Dilma. Seria um pagamento pelos serviços prestados para o afastamento dela? Afinal, Dilma represou os aumentos que Temer, o ilegítimo, concedeu.

A tal “Ponte para o Futuro” já mostrou a que veio: ser uma pinguela para o passado. Se considerar a proposta da Confederação Nacional da Indústria  (CNI) para aumentar a jornada semanal de trabalho para até 80 horas, a pinguela retorna ao século 18, no período pré-revolução industrial. Um governo ilegítimo, que toma o poder sem voto, como o de Temer acena com nenhum direito a mais. Por isso, é necessária a mobilização do trabalhador. Permanentemente.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Eu creio


Creio na escola libertadora, todo poderosa,
criadora de cidadãos pensantes e críticos
e no professor, um elo forte, nosso provocador 
que foi concebido pelo poder do conhecimento;
nasceu da vontade de aprender e de ensinar.

Padece sob a falta de recursos materiais e de valorizacão profissional,
é crucificado quando foge do padrão estabelecido
desce à mansão da suspensão da "escola sem partido",
renasce no dia seguinte, voltando à sala de aula,
está sentado ao lado de livros, roteiros de aula, exercícios e provas
de onde vai julgar o ensino e a aprendizagem.

Creio no espírito livre da escola,
na capacidade do estudante,
na comunhão do conhecimento,
na superação da ignorância,
na transformação da realidade
e na vida autônoma.

Amém!

Imagem: Reprodução.

domingo, 10 de julho de 2016

Inquietudes (326) do Rei

Quando digo que pesquiso a linguagem politicamente correta na perspectiva da variação linguística, há duas reações. A primeira, que interessante! A segunda, a linguagem politicamente correta é um saco, é chata demais. 

Meus argumentos: você também usa a linguagem politicamente correta. Sabe quando? Quando a palavra lhe afeta diretamente. Se você é politicamente correto consigo mesmo, por que acha que pode ser incorreto com o outro?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Sobre o espanto

“O Grito” (1893), Edvard Munch.

Você se espanta com os projetos sobre ideologia de gênero na escola, mas não se espanta com o assassinato de homossexuais.

Você se espanta com o nome social de travestis, mas não se espanta com o assassinato de travestis.

Você se espanta com as cotas públicas para negro, mas não se espanta com o racismo.

Você se espanta com o feminismo e a marcha das vadias, mas não se espanta com o machismo e a violência contra a mulher.

Você se espanta com a doutrinação da esquerda nas escolas, mas não se espanta com a doutrinação da direita na mesma escola.

Você se espanta com o incentivo do poder público ao ingresso de jovens na universidade, mas não se espanta com o baixo número de profissionais com nível superior.

Você se espanta com o Movimento Sem Terra (MST), mas não se espanta com o assassinato de sem terra por milícias de fazendeiros.

Você se espanta com a cultura e os costumes indígenas, mas não se espanta com a evangelização e a catequização dos índios.

Você se espanta com as cotas em empresas para pessoa com deficiência, mas não se espanta com a falta de acessibilidade.

Você se espanta com os atestados médicos e afastamentos do empregado, mas não se espanta com a exploração do trabalhador. 

Você se espanta com o trabalho infantil de crianças pobres, mas não se espanta com o trabalho infantil em novelas e seriados.

Você se espanta com a transferência de renda (programas como o Bolsa Família), mas não se espanta com a desigualdade social.

Você se espanta com a morosidade da Justiça, mas não se espanta quando a Justiça age seletiva e parcialmente. 

Você se espanta com a corrupção política, mas não se espanta com a propina paga para não ser multado por excesso de velocidade.

Você se espanta com a falta de agilidade no serviço público, mas não se espanta com a ineficiência de empresas privadas.

Você se espanta com a interferência do poder público no mercado, mas não se espanta com a sonegação fiscal de empresários.

Você se espanta com a demora no Sistema Único de Saúde, mas não se espanta com a falta de cobertura dos planos de saúde. 

O seu espanto diz muito sobre você. Mais do que gostaria.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Inquietudes (325) do Rei

O deputado federal Eduardo Cunha renunciou à presidência da Câmara. E daí? Ele é responsável por sabotar o governo Dilma, juntamente com a oposição, com as pautas-bomba contra o governo. Entre outras, trancou votações, mandou voltar votações, manobrou os trabalhos da comissão que avalia sua cassação, chantageou e aceitou o impeachment de Dilma por vingança. 

Tudo isso ajudou a aprofundar a crise política e a instabilidade institucional que levou um ilegítimo a ocupar o cargo de presidente. Ele e Michel Temer continuam parceiros, encontrando-se no lusco-fusco de Brasília. Temer tem o apoio de Cunha, da mídia tradicional e do silêncio das panelas. O deputado federal Eduardo Cunha renunciou à presidência da Câmara. E daí?

É o amor!


terça-feira, 5 de julho de 2016

A escola tem partido


Desde que os conservadores perderam a vergonha e saíram do armário, tudo que é ou lembra a esquerda é atacado e desqualificado.

E se não é nem lembra, não tem problema, acusa-se o outro de esquerdopatia e joga-o em uma vala comum.

É neste clima, que o projeto “Escola sem Partido” anda ganhando terreno em estados brasileiros, proibindo professores de debaterem política.

As aulas de história, geografia, filosofia e sociologia reúnem, nesta lógica, o antro máximo da doutrinação que faz a cabeça de jovens inocentes.

A escola é um espaço de debate por excelência e a educação deve apostar, ao máximo, na multiplicidade de ideia e de vozes.

Não há democracia sem pluralidade; não há pluralidade sem debate; não há debate sem liberdade de expressão.

No entanto, assusta - e muito - uma educação que debata livremente a política e o sistema de representatividade; o gênero, o transgênero, a transexualidade e a homofobia; o machismo e a violência contra a mulher; a condição e os direitos do negro e dos índios.

Para quem sempre doutrinou pelo machismo, é inconcebível que se debata o feminismo, a violência contra a mulher e a ideologia de gênero.

Para quem sempre doutrinou como macho, é inconcebível que se debata as orientações sexuais diversas e as práticas homofóbicas.

Para quem sempre doutrinou pela superioridade do branco, é inconcebível que se debata o direito à igualdade racial.

Para quem sempre doutrinou pelos dogmas cristãos, é inconcebível que se debata outras formas de religiosidade ou até a inexistência de deus.

Para quem sempre doutrinou pelas causas capitalistas, é inconcebível que se debata as causas socialistas.

Para quem sempre doutrinou segundo a visão do opressor, é inconcebível dar voz ao oprimido.

O problema não é a doutrinação, mas a doutrinação que o outro pode fazer. A escola é ideológica e tem partido. Qual você defende?

Crédito da charge: Benett/Gazeta do Povo (02/06/2016). 

Fui abandonada!



Virei musa nos protestos de junho de 2013.
Fui para as ruas exigir menos impostos, mais educação, mais saúde, mais transporte.
Não era por 20 centavos.
Era pelo Brasil, o meu partido.

Lutei contra a corrupção na política.
Tirei foto ao lado de policiais militares sorridentes e simpáticos.
Caminhei ao lado de famílias inteiras em manifestações pacíficas.
Gritei que não teria Copa.

Bati panela contra os corruptos do governo federal.
Protestei contra a terrorista e o nine.
Indignei-me contra os médicos cubanos escravos.
Insurgi-me contra a educação marxista e escrevi “Chega de Paulo Freire”.

Fui a estrela contra o PT e a ditadura bolivariana.
Escrevi na faixa “Fora Dilma e leve o PT junto”.
Mandei os simpatizantes desse regime pra Cuba.
Anotei no cartaz “Quero meu país de volta”.

Fiz a dancinha contra a Dilma.
Ajudei a encher o Pixuleco.
Xinguei a presidanta.
Reverenciei o Moro.

Apoiei o impeachment de Dilma.
Voltei à ruas para protestar contra o nine ministro.
Venci e o Brasil é meu.
Mas há sempre o que temer.

Fui usada, abandonada, esquecida; vivo, agora, no fundo da gaveta.
Um vídeo recente diz que os coxinhas sumiram da avenida.
No lugar, só pamonhas, pamonhas, pamonhas. 
Não é fácil ser uma camiseta.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O machismo e a violência


A ex-modelo e atriz Luiza Brunet acusa o ex-companheiro, o empresário Lírio Parisotto, de uma série de agressões. O resultado da violência deixou inclusive, em um episódio nos EUA, quatro costelas quebradas. 

Quem conta a história é o colunista de "O Globo" Ancelo Gois. O dia era 21 de maio e a atriz acompanhava Parisotto, em Nova York, onde ele receberia – olha que coincidência cruel – o prêmio de "Homem do Ano".

 “No dia seguinte, escondida, ela pegou um voo direto para o Brasil. A queixa foi representada no Ministério Público de São Paulo com o laudo de corpo de delito do IML feito por ela”, afirma o colunista. Luiza Brunet desabafou.

__Eu sempre tive uma família estruturada e sempre fui discreta em minha vida pessoal. É doloroso aos 54 anos ter que me expor dessa maneira. Mas eu criei coragem, perdi o medo e a vergonha por causa da situação que nós, mulheres, vivemos no Brasil. É um desrespeito em relação à gente.

Luiza Brunet, por sua coragem em expor o drama, merece os parabéns. Jogar o problema para debaixo do tapete resolve nada e, ainda, promove a impunidade do agressor.

A atriz lança luzes necessárias na violência contra a mulher, que não é restrita a mulheres pobres ou de famílias desestruturadas. 

O homem violento que espanca as mulheres frequenta o boteco na periferia e frequenta, também, os melhores restaurantes com o chef da moda.

O homem violento que espanca as mulheres anda de carro velho e anda, também, de carro importado do ano.

O homem violento que espanca as mulheres toma pinga e toma, também, whisky.

O homem violento que espanca as mulheres usa camiseta e bermuda e usa, também, terno e gravata de grife.

O homem violento pobre e rico desculpa-se da violência prometendo não agredir, mas sua cultura é da violência.

A agressão à mulher faz parte de uma cultura – a do machismo – que usa a violência para sobrepujar e, com isso, dominar.

O machismo justifica a violência e culpabiliza a própria vítima, afinal “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

O ditado popular revela-se perverso porque, ao lavar as mãos, os adeptos da filosofia subscrevem o mais forte, ou seja, o agressor. 

O machismo violenta e mata e – ao fazer parte de uma cultura – é ensinado e aprendido.  Esse ciclo precisa ser quebrado e essa tarefa é responsabilidade de todos nós. 

Crédito da imagem: Campanha de combate à violência contra a mulher, do Hospital do Trabalhador, de Curitiba, realizada em 2015.