quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Melhor para Dilma

Foto: Reprodução Fotos Públicas.

Para a trajetória pessoal da presidenta Dilma Rousseff é boa a decisão do Senado de torná-la ré no processo de impeachment, em mais uma etapa do processo de afastamento que avança. Foram 59 votos favoráveis e 21 contrários. Se for afastada definitivamente, melhor ainda. Por que é bom para a trajetória pessoal de Dilma?

A presidenta afastada é acusada, fundamentalmente, de ter cometido crime de responsabilidade com as tais pedaladas fiscais, crime que o Ministério Público Federal disse que não se caracterizou e o Tribunal de Contas (TC) minimizou, depois que perícia do Senado não constatou irregularidades. 

Além disso, o processo foi aberto na Câmara, comandado por Eduardo Cunha, comprovadamente beneficiário de esquemas de corrupção e na votação de 17 de abril, um espetáculo deprimente de centenas de deputados que respondem processos na Justiça. O placar de 59 votos, no Senado, contempla 35 de senadores acusados de receber propina da construtora Odebrecht.

Mulher honesta

Dilma não é acusada de receber propina na Lava Jato, nem de enriquecimento ilícito. Até a oposição – figurada no ex-presidente FHC, que botou lenha na fogueira do afastamento - a reconhece como uma “mulher honrada”, sem envolvimento em desvio de recursos públicos. Sem crime de responsabilidade, fica caracterizado que Dilma, uma mulher honesta, é afastada por questões políticas por políticos notoriamente corruptos. 

Ao contrário de Dilma, Temer é acusado, nas investigações da Lava Jato de ter pedido  R$ 10 milhões para a construtora Odebrecht. A acusação é do empreiteiro Marcelo Odebrecht. Ele afirma, em deleção premiada que está sendo negociada, que o pedido de Temer foi feito no Palácio Jaburu, enquanto vice-presidente da República.

Michel Temer traiu a companheira de chapa para tomar o poder, depois que o PMDB elaborou o projeto “Ponte para o Futuro”, para romper com o PT. Ele montou um ministério de notáveis acusados na Lava Jato. Romero Jucá, que não chegou a esquentar a cadeira de ministro do Planejamento, foi flagrado em gravação para deter a Lava Jato, com a mudança na presidência. 

O Chefe da Casa Civil de Temer, o ministro Eliseu Padilha, é acusado de receber propina de R$ 4 milhões, também da construtora Odebrecht. Outros nomes do governo Temer e "tucanos graúdos" que apoiam seu governo também são acusados de envolvimento em corrupção. Não é novidade que a cúpula do PMDB nacional está envolvida em corrupção e muitos nomes ocuparam cargos no governo Dilma e Lula, fruto da aliança PT-PMDB, para a montagem de um governo de coalizão. A governabilidade cobra seu preço, lembrando que ninguém celebra aliança imaginando ser traído. Temer, Jucá, Padilha e o PMDB traíram Dilma porque queriam mais. 

Vale ressaltar que o processo de cassação do deputado Eduardo Cunha, amigo de Temer foi adiado mais uma vez, para setembro. A manobra contou com o envolvimento do Planalto (leia-se Temer) para ajudar o parceiro Cunha a garantir seu mandato. A postergação da votação, sacramentada por Rodrigo Maia, tem o dedo da antiga oposição PSDB, DEM e PPS, agora governistas de Temer.

O golpe como narrativa 

A narrativa do afastamento de Dilma, uma mulher honesta, como uma armação de homens corruptos para tomar o poder consolida-se cada vez mais no Brasil e no cenário internacional. O isolamento de Temer, na abertura da Rio 2016, deixa claro o que o mundo pensa sobre o interino e sua interinidade ilegítima. O argumento de que o impeachment segue os ritos constitucionais cola cada vez menos.  

Apenas 18 chefes de estado estiveram na abertura da Rio 2016 e se recusaram a ficar na área VIP, junto ao presidente de ocasião, conforme conta reportagem do jornal O Estado de São Paulo. Londres (2012) teve mais de 90 representantes internacionais; Pequim, 70; Atenas, 48. Isso sem contar que o nome de Temer não foi citado uma única vez na abertura, nem quando declarou os jogos abertos e, mesmo assim, não escapou da vaia que tanto temia.

O candidato democrata a candidato à Presidência dos EUA, Bernie Sanders, uma das maiores surpresas da corrida presidencial do país, pediu para que o presidente Barack Obama se pronuncie contra o golpe em curso no Brasil. Em maio, um grupo de 34 parlamentares europeus pediu que a “União Europeia (UE) interrompa as negociações comerciais com o Mercosul por conta do afastamento da presidenta Dilma Rousseff”. O mundo vê Temer como ilegítimo e o afastamento de Dilma, como um golpe de estado.

A presidenta Dilma é afastada por crime de responsabilidade que não ficou caracterizado. Dilma, uma mulher honesta, é derrubada por homens corruptos. Seu impeachment se consolida como uma ruptura institucional. Se vier a não mais assumir a cadeira para a qual foi eleita com 54 milhões de votos, Dilma entrará para a história como uma mulher honesta que foi vítima de corruptos, que a traíram, para tomar o poder. Entendeu porquê é melhor o afastamento definitivo para a trajetória pessoal de Dilma?

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