terça-feira, 13 de setembro de 2016

Longe do fim!

Charge: Laerte

A cassação do deputado federal Eduardo Cunha, na madrugada desta terça-feira (dia 13) foi comemorada por muita gente e lamentada por outro tanto, mas seu afastamento está longe de resolver a crise política na qual enfiaram o país. Aliás, se ele abrir a boca, essa crise vai descer mais alguns degraus do poço, que achávamos ter visto o fundo.  No cenário nacional, há várias pontas de um quebra-cabeças que vai aos poucos sendo montado. Alguns fatos para recordar.

1) O ex-todo-poderoso Eduardo Cunha foi alçado à condição de presidente da Câmara pela oposição à Dilma Rousseff e ao PT; contou com apoio de parte da mídia tradicional que escondeu a ficha corrida dele. Nas últimas semanas, vários veículos de comunicação pediram a cabeça de Cunha, concretizada nesta terça-feira.

2) O senador Aécio Neves e outros nomes do alto tucanato apoiaram Eduardo Cunha por revanchismo ao perderem  as eleições de 2014. Interessava muito ao partido tirar Dilma do poder. Tanto que o PSDB apoiou as pautas-bomba de Cunha para desestabilizar a ex-presidenta, o que aprofundou a crise econômica.

3) Eduardo Cunha teve pedido de afastamento endereçado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2015. O ministro Teori Zavaski somente concedeu a liminar afastando-o vários meses depois, a tempo de Cunha encaminhar o pedido de votação da admissibilidade do impeachment de Dilma. 

4) Eduardo Cunha que ajudou Temer a chegar ao posto máximo da República deve estar se sentido traído pelos antigos aliados: o próprio Temer e mais de duas centenas de deputados federais . Se Cunha resolver falar, o governo Temer vira pó, porque em ruínas está desde o seu começo.

5) Na semana passada, a revista Veja, que atirou semanalmente em Dilma, abriu fogo contra Temer, dando voz ao ex-advogado Geral da União, Fábio Medina Osório, demitido na sexta (dia 9). Osório declarou que o governo tenta abafar a Lava Jato. Representação para se investigar o nome forte do governo Eliseu Padilha, por obstrução da justiça, já foi feita à Procuradoria Geral da República (PGR). Basta ver se o procurador-geral, Rodrigo Janot, terá a mesma disposição que tem contra Dilma e Lula.

6) Temer está envolvido pessoalmente na Lava Jato. Ele foi citado em delação de Sérgio Machado, para quem teria pedido propina direcionada à campanha do PMDB. Mesmo que não possa ser investigado por fatos anteriores à posse, o fato continua sendo um peso para sua imagem pessoal e de seu governo, que ostenta vários nomes entre os acusados de cobrar propina.

7) Na semana passada, o senador Aécio Neves declarou que o PSDB – empenhado na derrubada de Dilma desde que perdeu as eleições de 2014 – não vai tolerar o governo Temer, se este não fizer as reformas e os ajustes fiscais conforme a agenda tucana neoliberal. As críticas ao governo vieram de vários nomes do partido. 

8) As medidas anunciadas pela “equipe econômica dos sonhos” do governo federal - no tempo da interinidade e, agora, na efetividade - não têm repercutido na recuperação da economia. Hoje, o dólar subiu e a Bolsa de Valores de São Paulo desceu. E nada de investidores estrangeiros colocarem dinheiro no país, como foi prometido com a queda de Dilma. Afinal, quem espantava os investimentos era Dilma, não era?

9) A popularidade de Temer continua ladeira abaixo por suas propostas que sacrificam ainda mais o trabalhador. Sua chegada ao poder se consolidou como um golpe na democracia e esta narrativa será difícil de ser revertida. As manifestações contra o governo aumentam e tendem a aumentar ainda mais com a apresentação das medidas que o governo quer implantar, entre elas aumento da jornada de trabalho e limite de 65 anos para aposentadoria. 

10) Paralelamente ao processo de impeachment de Dilma, corre no Tribunal Superior Eleitoral (TSE),  processo que avalia a cassação da chapa Dilma/Temer. O vice solicitou que a prestação de contas da campanha de Dilma separasse as contas do vice. Na semana passada, o TSE determinou que a prestação de contas tem de ser conjunta e feita por Dilma e Temer.

Ao cruzar fatos passados com acontecimentos recentes surgem alguns questionamentos. Qual o interesse da revista Veja e de outros veículos em dinamitar os pilares do governo Temer depois da empreitada para tirar o PT do poder? Por que tanto esforço do PSDB e de outros partidos da oposição tirar Dilma e “eleger” Temer e, agora, seu governo ser abandonado? Um governo Temer fraco e frágil pode ser motivo para tirá-lo do poder, a exemplo do que foi feito com Dilma? Se o TSE cassar a chapa Dilma/Temer ainda em 2016, haverá novas eleições pelo voto direito, mas se for cassada em 2017, haverá uma eleição indireta e o presidente será eleito pelo Congresso Nacional. Quem seria candidato?

Como se vê, a crise política está longe do fim! A pedra e a vidraça somente mudaram de lado. 

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