sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Notas sobre o impeachment

Charge: Amarildo. Do blog do autor.

Desde 31 de agosto, o Brasil não é o mesmo com a ruptura institucional, provocada pelo afastamento da presidenta Dilma e a ascensão ao poder de um projeto que não disputou as urnas. Nesse pós-impeachment, valem algumas considerações.

1) Uma parcela significativa dos brasileiros, os que apoiaram a derrubada de Dilma, continua a afirmar que a responsabilidade de Temer, no poder, é de quem votou na petista. Argumento simplista. Por que? Temer, como vice, não assume como continuidade do projeto do PT, eleito em 2014. Ele traiu Dilma e levou - para a cama do Planalto - Eduardo Cunha, PSDB, DEM e toda a oposição do Congresso.

2)  Temer vai implantar um programa - Ponte para o Futuro – feito pelo PMDB feito em 2015 para romper com o PT. Essa Ponte não disputou as urnas, não foi legitimado pelo eleitor, pelo voto. Aliás, esse programa, sustentado pelos tucanos, foi derrotado nas últimas quatro eleições. Portanto, Temer presidente, nessas condições, é fruto – não de quem votou em Dilma – mas de quem apoiou o impeachment, inclusive você que se vestiu de amarelo-CBF, gritou nas ruas e, agora, faz cara de paisagem.

3) Na traição de Temer a Dilma, os mesmos culpam a presidenta Dilma pelo casamento com o PMDB. A traição do vice é amenizada ou simplesmente ignorada. Arrisco dizer que aqui se faz presente a questão de gênero. O marido traidor trai a esposa porque é da sua natureza ou porque sua mulher deu-lhe motivos. Ah! mas ela sabia que o PMDB não presta e é oportunista. Sim, é verdade, mas mesmo quem casa com um traste não o faz esperando ser traído. O machismo explica porque Dilma é condenada pela aliança feita com o PMDB, mas livre Temer do peso da sua traição.

4) Os erros de Dilma são muitos, são enormes. Ela fez parceria com o PMDB para garantir governabilidade; não tem tato político; mexeu em esquemas antigos de corrupção quando tirou diretores da Petrobrás e Furnas, sem mobilização para isso; se reelegeu com a esquerda e acenou para a direita com o Levy; propôs um ajuste fiscal desastroso; não fez reformas de base; nomeou Lula ministro fora de hora. E nada disso é motivo para o impeachment e tudo, ao mesmo tempo, é pretexto. 

5) O impeachment de Dilma, sem crime de responsabilidade, abre um precedente sério e torna o Executivo suscetível - ainda mais - à chantagem do Legislativo, claro, desde que a mídia partidarizada infle as ruas atacando uns grupos e escondendo outros. Nenhum presidente, governador ou prefeito terá a garantia de governar. As urnas não têm mais a importância de outrora.

6) Dilma não cavou – sozinha - a própria cova. Essa foi aberta também por a) uma oposição que não aceitou os resultados das urnas, liderada por Aécio Neves; b) pelo fisiologismo do Congresso Nacional, que estancar a sangria da Lava Jato (20 senadores que afastaram Dilma estão delatadas na operação); c) pela seletividade da Lava Jato que inflou as ruas com vazamentos direcionados, prisão para forçar delação premiada; d) pela cumplicidade do STF; pela partidarização da mídia, que mobilizou gente para os protestos contra o governo Dilma; e) pelo mercado que vive de juros e capital especulativo e, por fim, f) por aqueles que foram para as ruas de amarelo-CBF, que diziam que lutavam contra a corrupção de todos e estão quietinhos vendo Cunha salvar o mandato, com a ajuda de Temer. 

7) Muitos que inflaram as ruas contra Dilma e o PT reclamam que a presidenta Dilma “declarou guerra” a Temer e que os movimentos sociais incitam a violência, uma guerra civil. A violência já existia e o que pode acontecer é seu recrudescimento. Quem apóia o impeachment se divertiu quando estádios inteiros mandaram Dilma tomar no cu; não repudiou quando atacaram sedes de partidos da esquerda nem quando pregaram a morte de Lula. Os que agora reclamam, agora, aplaudiram quando ex-ministros do PT foram atacados em livraria, restaurante e até hospital; quando a Lava Jato vazou seletivamente para influenciar a opinião publicada. Quem apóia o afastamento de Dilma não se preocupou com a violência ao estado democrático de direito quando Moro incitou as ruas contra Lula ministro, com vazamento ilegal de áudio para a Globo e realizou operações casando com a agenda política do país. Agora, a “declaração de guerra” de Dilma preocupa. Não! Quem declarou guerra ao Brasil foi Aécio Neves, um mau perdedor, que apostou no quanto pior, melhor. O tucano arrastou a oposição nessa empreitada que foi patrocinada pelo mercado (carimbo da Fiesp) e pela mídia tradicional. Quem incendiou o Brasil não pode reclamar do fogo que ajudou a acender. 

8) Lembra-se dos movimentos apolíticos e apartidários que fizeram o gigante acordar? Então, muitas lideranças do Movimento Brasil Livre e Vem pra Rua são candidatos às eleições municipais deste ano. Eles têm todo o direito de concorrer, mas fica a lição de que não existe movimento político apolítico e muito menos gente apartidária que toma partido. Acreditou no apartidarismo e nos seres apolíticos quem gostar de dizer que a política não presta. A política não é ruim nem nefasta. Ruim e nefasta é a política feita nas sombras, sem transparência.

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