segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Sobre certo e errado; língua e opressão

É triste, em um debate, quando alguém desqualifica seu interlocutor porque este usa variantes linguísticas consideradas erradas pela gramática normativa. Quem faz isso, ataca o outro por puro preconceito linguístico, que é uma extensão do preconceito social. Quem corrige a fala do outro, acha que sua fala é correta, melhor e mais bonita.

O que essa gente não sabe, é que nem ela fala a língua padrão, aquele sistema - pretensiosamente - ensinado nas aulas de Língua Portuguesa. Nem o professor domina o padrão. O que há são variedades faladas por diferentes segmentos. Os mais escolarizados falam a variedade culta e os menos, a variedade popular. 

Tanto que é possível perceber alguém corrigindo quem fala “errado”, usando expressões “erradas”. Na última semana, um promotor público de Londrina disse preferir adolescentes na biqueira do que estarem em uma escola ocupada. O promotor é ninguém menos que o promotor da Vara da Infância e da Adolescência, Marcelo Briso Machado. 

A fala do promotor, sobre preferir adolescentes na boca de fumo, repercutiu muito no final de semana e, neste texto, interessa um aspecto mais sutil que se revela também preconceituoso. Em dado momento, o promotor corrige um estudante dizendo que não se trata de câmera, mas de Câmara dos Vereadores. 

Além disso, o promotor público disse que prefere uma coisa do que outra. Pela gramática, quem prefere, prefere alguma coisa a outra coisa. Então, o promotor deveria falar que prefere adolescentes na biqueira a estarem em uma escola ocupada. Quem corrige também “erra”, não é mesmo?

No contexto em questão, o “erro” do promotor e a correção ao aluno não fazem a menor diferença, apenas revelam a noção de superioridade consolidada socialmente por aqueles que dominam mais o uso das variantes linguísticas da linguagem culta. No entanto, esse tipo de correção ganha adeptos. Em um post do vídeo do promotor que viralizou, um internauta ironiza a molecada que fala “noiz foi” e “noiz vai”. “Está faltando aulas nas escolas”, diz o internauta.  



Isso mesmo. Quem corrige a fala do outro, também fala “errado”. Estão faltando aulas nas escolas. Além disso, ele escreve que não tem procuração “pra defender”. Muitos gramáticos atestam que o “mais correto” é para e pra deve ser usado apenas em situações informais, na fala e não na escrita. Pode ainda ser criticado o gerúndio “está faltando”, cujo gerundismo é considerado, pelos puristas da língua, um vício de linguagem.

A ideia de “certo” e “errado” na Língua Portuguesa é antiga e usada como instrumento de opressão social, para desqualificar quem não usa as variantes de prestígio. Quanto maior a classe social de quem fala, maior o prestígio; quanto mais baixa, mais estigmatizada. Portanto, o preconceito linguístico nada mais é que uma extensão do preconceito social.

O “certo” e o “errado” são vendidos pelos normativistas e gramáticos de plantão que ocupam espaços privilegiados nos meios de comunicação, que vivem ensinando receitinhas de “como falar melhor”. Prestariam um serviço à sociedade, se vendessem como projeto a necessidade daqueles que dominam o nóis vai precisar dominar, também, o nós vamos. O ensino da língua deve valorizar o que o estudante domina, para que possa dominar outras variantes e não estigmatizá-lo de não saber o português.

Assim, essa pessoa pode – com repertório maior – utilizar as variedades linguísticas conforme pedem os contextos e as situações; e não para aprender a falar melhor porque ele não sabe o português. Todo mundo fala a sua língua, em sua variedade e comunidade de fala. E isso faz parte da sua identidade.  Fora disso, é preconceito que gera discriminação.

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