sábado, 4 de março de 2017

Sobre rótulo, estigma e preconceito


Para além dos rótulos da relação religião-moralismo-homossexualidade, uma questão chama a atenção na notícia "Pastor da Assembleia de Deus, preso em Joinville, matou o namorado a facadas", publicada no jornal Gazeta de Joinville, neste sábado (4 de março). 

Leia os trechos da reportagem. 1) "Edilson Turato, é acusado de matar seu companheiro, com quem mantinha um relacionamento homoafetivo." 2) "Segundo relato do próprio pastor a justiça paulista, o relacionamento homossexual com seu  companheiro, Marco Antonio Gomes, era conturbado devido ao excessivo ciúme de Marco e o constante uso de drogas do pastor."

Edilson Turato, o assassino, é homem. Marco Antonio Gomes, o assassinado, era homem. Os dois homens mantinham uma vida a dois. Classificar, portanto, o relacionamento dos dois e homoafetivo, neste caso, implica em duas imprecisões da linguagem.

A) Se era conturbado e havia ciúmes em excesso, não era um relacionamento construído no afeto, tanto que chegou ao assassinato de um dos dois. B) Se o relacionamento é entre dois homens, está claro que se trata de homossexuais. Então por que ressaltar que Edilson e Marco Antonio mantinham um "relacionamento homoafetivo" ou um "relacionamento homossexual"? 

Jornalisticamente nem se trata de uma informação porque o relacionamento entre dois homens já diz do que se trata, ou seja, a informação é o relacionamento entre os dois. Afinal, dois homens que transam não têm uma relação hétero. O valor notícia está no fato: o assassinato cometido pelo pastor.

Do ponto de vista linguístico, as expressões "relacionamento homoafetivo" ou "relacionamento homossexual" também não servem para muita coisa, exatamente porque o sentido não está inscrito nas próprias, mas no discurso a que elas remetem. 

Trata-se de um discurso preconceituoso que gera a diferenciação entre o gay e o não gay. Por acaso, quando alguém se refere ao ex-goleiro Bruno, condenado por mandar matar Eliza Samudio, sua ex-namorada, assinala que ambos mantinham um relacionamento heterossexual? 

Outro viés deve ser considerado no uso da expressão "relacionamento homoafetivo", o da linguagem politicamente correta, necessária, mas que também comete exageros. Seria este um exemplo disso? Qual o termo mais correto para o uso jornalístico: relação entre dois homens ou relacionamento homoafetivo? Do ponto de vista do sentido e do discurso, não são a mesma coisa.

Enfim, a resposta não é definitiva e, como se trata de linguagem, as mudanças são rápidas porque a língua é dinâmica. No entanto, uma coisa é certa.  Quando o jornalismo usa esse tipo de rótulo (casal gay, beijo gay, relacionamento homossexual), a pretexto de informar, acaba estigmatizando ainda mais os envolvidos que não precisam dessa ajuda. Afinal, morte, prisão, religião já são campos férteis para os rótulos.

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